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Redacção
October 29, 2019

A ÁGUA DA VIDA E DA MORTE

As pessoas que consomem águanão tratada estão expostas a inúmeras enfermidades como febre tifóide, xistossomose e infecções urinárias, alertou, em declarações à Economia & Mercado...

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A especialista em Clínica Geral Saránia Sapwanale, referindo-se aos vários casos de consumo de água imprópria que se têm registado um pouco por todo o país.

De acordo com a médica, o consumo de água não tratada por parte das mulheres pode provocar infertilidade em consequência de uma infecção urinária, que, quando não medicada ou mal curada, também pode dar origem ao nascimento de crianças com malformação congénita, bem como ao surgimento de abortos espontâneos.

Para alertar sobre a gravidade da situação em Angola, a especialista fez referência a um caso recente verificado no Kwanza Sul, onde cerca de 80% das crianças observadas durante um programa de intervenção social realizado no município da Quilenda por médicos voluntários ao serviço da Fundação Dar de Coração, apresentavam “um quadro de diarreia fruto do consumo de água imprópria”. O aumento no país de pacientes com tais sintomas, segundo Saránia Sapwanale, está relacionado com a maior exposição da população a este tipo de água.

Gritos de socorro

Na comuna da Barra do Kwanza, a população “faz das tripas coração” para “matar a sede” e garantir a hidratação do organismo. Segundo Filipe Dala, de 60 anos, morador há 23 anos na comunidade do Tapo – zona ribeirinha que dista cerca de 42 quilómetros do centro da cidade de Luanda –, são vários os casos de doenças diarreicas e infecções na pele que já chegaram a terminar em óbitos.

“Quando vim morar para este bairro, existiam apenas duas casas”, recordou, afirmando que a população consome água das cacimbas desde que os primeiros habitantes começaram a povoar a localidade.

Para o ancião, o principal motivo das doenças e de alguns óbitos registados naquela comunidade está ligado ao consumo de “água não tratada”. Filipe Dala, que exerce o cargo de coordenador da comissão de moradores do bairro, justificou que antes de falecerem, as vítimas “queixavam-se de dores de barriga”.

“Foi há um ano que perdemos duas pessoas que viviam aqui”, afirmou visivelmente constrangido com a situação, acrescentando que as vítimas estavam com “muita diarreia de sangue”, sendo que uma delas acabou por falecer a caminho do Centro Médico dos Ramiros.

A situação, segundo afirma, é do conhecimento das autoridades locais, nomeadamente da administração comunal. Às vezes, salientou, a comunidade beneficia do apoio das autoridades, que se resume na disponibilização de uma cisterna, “mas que infelizmente requer uma comparticipação financeira dos moradores para abastecê-la”.

Para minimizar a carência de água potável na comunidade do Tapo, conta Filipe Dala, a Associação Juvenil de Apoio às Comunidades (AJACOM) – organização filantrópica que, em conjunto com empresas parceiras, apoia a referida comunidade desde 2016 – doou, através da empresa angolana Noráfrica, um reservatório com capacidade para armazenar 10.000 litros de água potável.

Mais tarde, segundo ainda Filipe Dala, a empresa brasileira Núcleo de Comunicação (NC) passou a assegurar o abastecimento do recipiente através de apoio financeiro de 18 000 kwanzas por mês.

“Quando o dinheiro para comprar água para a cisterna demora ou a água do tanque acaba, a população recorre às cacimbas novamente”, lamentou, justificando que 10 000 litros “não chegam” para acudir à carência, sendo que dura apenas duas semanas na época de frio e menos de uma semana no Verão.

Ainda no município de Belas mas no distrito do Morro dos Veados, que, entre outros, abrange os bairros Bela Vista, Matadouro, Mundial, Padaria das Eleições, Macuia, Baixa do Maruvo – todos localizados entre a estrada nº 100 (EN-100) e a Avenida Fidel de Castro Ruz – também é gritante a falta de água potável.

Segundo Manuel Couto, morador do bairro Bela Vista há mais de cinco anos, além da “onda de assaltos” à mão armada e da falta de corrente eléctrica, o bairro é caracterizado pela negativa devido ao problema do acesso à água potável.

Curiosamente, Manuel Couto trabalha como camionista há mais de 30 anos e, nos últimos anos, dedica-se à venda do precioso líquido a partir de um camião cisterna. Ainda segundo o camionista, a população depende dos camiões-cisterna para ter acesso à água que nem sempre é potável, tendo em conta “a má-fé de muitos motoristas deste tipo de veículos”.

“A carência de água acentua-se mais no tempo chuvoso, dadas as dificuldades que as vias de acesso apresentam, o que onera o preço do líquido”, disse.

Carência afecta também as zonas urbanas

Rita Valentim Frederico António é moradora no bairro Gamek à Direita, no Morro Bento I, distrito Urbano da Samba, há 20 anos. E à semelhança do que acontece nas comunidades do Tapo, Bela Vista, Mundial, entre outras localidades, também sente na pele a carência de água potável, apesar de viver numa zona considerada urbanizada. “Tia Rita”, como é tratada pelos mais próximos, levanta-se entre as 5 e as 6 horas da manhã para preparar o pequeno-almoço para a família (esposo, filhas e netos) e para abrir as portas às dezenas de clientes que a procuram.

O bairro Gamek à Direita, desde que recebeu esta designação por parte dos próprios populares que o habitam – já lá vão mais de 20 anos –, nunca beneficiou de um programa de abastecimento de água corrente seja a nível dos domicílios, seja a nível dos chafarizes, embora o Gabinete

de Aproveitamento do Médio Kwanza (GAMEK), hoje afecto ao Ministério da Energia e Água, tenha instalado ali um ponto para o abastecimento dos seus camiões-cisterna.

“Obrigaram-nos a meter as torneiras, mas até aqui nunca vimos sinal de água a jorrar”, lamentou, desolada, tia Rita, denunciando a existência de motoristas de camiões-cisterna que procedem de má-fé ao venderem “água imprópria como se de água potável se tratasse”.

A carência do produto no seio do bairro levou-a a “mergulhar” também no “negócio da água”, que tem servido para ajudar a garantir o “pão de cada dia”, sendo que vende um recipiente de 20 litros de água a 75 kwanzas que, a depender da escassez ou especulação de preços dos seus fornecedores, pode subir para 80 ou mesmo 100 kwanzas.

Augusto Capacata e Manuel Couto trabalham ambos como comerciantes de água em camiões-cisterna e, apesar de cada um ter o seu tempo de experiência na actividade, partilham a mesma rotina: levantar de madrugada para vender água sem saber a que horas regressam a casa.

Ambos revelaram que a rotina se torna mais difícil na época chuvosa e quando há dificuldades para conseguir abastecer as cisternas nas girafas da EPAL, que durante um determinado período estiveram paralisadas.

“A procura pelo precioso líquido é considerável”, afirmam os camionistas que têm de embraiar com força para meter as mudanças na caixa e seguir viagem em direcção aos bairros mais precários de Luanda, sobretudo os do município de Belas.

Para abastecer uma viatura, com a capacidade de 20 000 litros de água, pagam aos fornecedores autorizados (vulgos girafas) 6.000 kwanzas por cada carregamento, sendo que o consumidor final paga 1.000 kwanzas por cada 1.000 litros, enquanto os vendedores de água em motorizadas de três rodas, vulgos “caleluias”, cobram entre 3 500 e 4 500 kwanzas por cada 1 000 litros de água potável.

Feitas as contas, no final de uma semana de trabalho, os “homens das picadas” apresentam aos proprietários dos camiões cerca de 100 000 kwanzas (o equivalente a 20 000 kwanzas/dia). Já o “ajudante prático” (jovem com noções básicas de condução e mecânica) arrecada pelo seu trabalho cerca de 10 000 kwanzas por semana (40 000 kwanzas/mês).

Os motoristas dos camiões-cisterna, por sua vez, podem levar como lucros da actividade entre 30 000 e 40 000 kwanzas por semana, dependendo da procura e de eventuais despesas com a viatura, que normalmente fica sob sua responsabilidade (combustível, pneus, peças sobressalentes...), o que, para os motoristas, constitui uma certa “dor de cabeça”. Durante um mês de trabalho, cada motorista de cisternas de até 20 000 litros de capacidade pode facturar cerca de 160 000 kwanzas.

Com mais de 20 anos de experiência no “negócio da água”, Manuel Couto garantiu que tem sustentado a família com a venda deste produto, e que não faltam “solicitações” para abastecer tanques, sobretudo nas zonas da periferia de Luanda.

“As coisas agora estão regularizadas”, diz Manuel Couto, referindo-se ao bom funcionamento das girafas ao nível da província de Luanda, sendo que houve “um período de muita carência de água” pelo facto de a maioria dos pontos de abastecimento do precioso líquido ter sido “temporariamente encerrado”.

Augusto Capacata, por outro lado, reconhece que, por esta razão, tem havido muita “especulação de preços” e venda de “água imprópria para o consumo humano” por parte de muitos camionistas. “Para estes colegas é necessária uma punição severa”, defendeu, salientando que é “desumano” e que é necessária uma maior fiscalização dos órgãos competentes.

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