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Redacção
November 25, 2019

A fragmentação da ordem comercial global

As tensões comerciais entre a china e os EUA abriram o debate sobre o futuro do regime comercial global. Será o choque actual um evento único, passível de se resolver mediante um acordo comercial?

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Ou estaremos nós a presenciar o início da fragmentação da arquitectura do comércio mundial?

Há quem acredite que as economias da China e dos EUA estão de tal modo interligadas — e a interdependência das suas cadeias de valor é de tal modo arreigada — que uma ruptura estrutural entre as duas seria simplesmente demasiado onerosa. Esse custo, por si só, deveria bastar como argumento para evitar um conflito sustentado entre as duas economias mais fortes. Debrucemo-nos sobre os números que captam a ascensão da China e a sua rápida convergência com os EUA. De 1992 a 2017, o PIB da China disparou de 400 mil milhões de dólares para mais de 12,2 biliões. Isto significa que, em termos nominais, ronda os 64% do PIB dos EUA, que se situa nos 19,3 biliões de dólares. Trata-se de uma situação extraordinária, uma vez que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA não enfrentavam um rival geopolítico com um PIB superior a 40% do seu. Nem o Japão, nem a União Soviética se aproximaram.

A despesa militar chinesa, por outro lado, aproxima-se rapidamente dos 200 mil milhões de dólares, com o orçamento oficial deste ano só ligeiramente abaixo desse número, posicionando a despesa total da defesa chinesa para níveis equivalentes aos de todos os países da UE juntos. Assim sendo, os valores económicos e militares agregados, por si só, parecem ser suficientes para suscitar um certo temor em Washington sobre a capacidade dos EUA para reter a hegemonia global. Não obstante, determinadas tendências tecnológicas, muito em particular, poderiam agravar ainda mais estas dinâmicas. De facto, o impacto da tecnologia na dinâmica do mercado contribuirá para a colisão sino-americana.

Na frente económica, observamos três desenvolvimentos que dificultarão possíveis acordos comerciais e de cooperação eco-nómica, entre os EUA e a China. Em primeiro lugar, a crescente disputa pelo talento. Temos bons exemplos, como Silicon Valley ou Shenzhen. A disputa pelo talento global só tende a acentuar-se nas próximas décadas e China e EUA irão, inevitavelmente, colidir. Em segundo lugar, os mercados digitais favorecem a escala e as empresas capazes de recolher e tratar dados de forma efectiva. Isto torna-se bastante evidente na concentração do mercado em determinadas indústrias e no acréscimo sustentado da produtividade de certas empresas. Com efeito, o sector empresarial está a dividir-se em dois grupos: um formado pelas empresas capazes de aumentar a produtividade através da tecnologia e outro pelas empresas que não o fazem. A OCDE denomina o primeiro grupo de «empresas fronteiriças», com uma estimativa de crescimento médio da produtividade de 30% na última década.

O restante sector empresarial, que representa cerca de 95% de todas as empresas, não experimentou semelhante crescimento da produtividade durante o mesmo período. Estes dados representam um força oligopolista — se não completamente monopolista — nos mercados digitais. Esta tendência gera, cada vez mais, mercados de vencedores e, portanto, de grandes vencedores e grandes vencidos, em toda a economia. A China e os EUA são as duas únicas economias que, até à data, parecem capazes de produzir vencedores nesse mercado digital. Longe de fomentar a colaboração, este mercado incentiva uma competição feroz pelo domínio do mercado digital. As duas tendências anteriores são agudizadas por uma terceira: a concentração da transferência tecnológica e o espírito empresarial em determinadas zonas do mundo. A China e os EUA dominam o panorama das novas empresas no mundo inteiro. A maioria dos unicórnios concentra-se, efectivamente, nestes dois países. Tendo, forçosamente, de se juntar às empresas classificadas como «fronteira», estas serão as mais produtivas e competitivas. Todos estes fatores prenunciam um mundo G2 com duas grandes potências a disputar o domínio em mercados altamente competitivos. Permita-me agora tentar responder à pergunta com que enceto este artigo: serão as tensões comerciais entre a China e os EUA um fenómeno passageiro ou a manifestação de algo mais estrutural? Dado o crescimento económico da China e as características particulares dos mercados digitais diria que, de facto, estamos a entrar numa nova etapa da política global, que será dominada por tensões entre os EUA, os seus aliados e a China, e que não poderão deixar de afectar tanto o comércio mundial como outras áreas de cooperação internacional. Um dos focos de tensão será, muito em particular, o das empresas tecnológicas — o que faz com que o caso da Huawei não seja uma aberração e sim um prenúncio do que está por vir. O risco final será o surgimento de duas ilhas de dados, uma na China e outra nos EUA — e, possivelmente, na Europa. Estes dois grandes mercados não seriam permeáveis e desenvolveriam os seus próprios campeões.

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