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Pedro Cativelos
October 20, 2019

A sombra das sombras

Dizem-nos as notícias que a amazónia tem estado a arder nas últimas duas semanas de Agosto. As queimadas, tradicio-nais da época, tal como acontece também em África, por esta altura,

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...ganharam proporções que não tomariam noutros tempos, quando as épocas traziam certezas imutáveis e as chuvas chegavam só porque era tempo de elas caírem.

E o fogo alastrou para consumir o que o clima tem vindo a deixar secar nos últimos anos, com apetite voraz que, enquanto escrevo, ainda não está saciado.

Não vou falar do clima que aqueceu, no geral, ou enumerar tudo o que a Amazónia nos dá sem pedir de volta. Na verdade, esta será a floresta mais conhecida do mundo, uma espécie de estrela Pop do mundo natural. Aquela que todos reconhecem desde os tempos de escola, nem que seja só por isso, apesar de pensar que, se calhar, tal como todas as estrelas de qualquer coisa, só bem poucos a conhecem de facto. Mas é única e é importante. É o que chega, e já é muito.

Há, no entanto outras florestas, pelo mundo, menos reconhecidas, para não dizer que são mesmo completamente anónimas para todos nós quando comemos carne, atestamos o carro ou deitamos uma garrafa de plástico no lixo. Algumas delas estão (estiveram) aqui mesmo em Moçambique. Revelamos nesta edição que, em três décadas, mais de metade de toda a mancha florestal do país, simplesmente desapareceu. Pelo abate ilegal que alimenta uma indústria criminosa e pelo consumo de carvão das famílias que, em muitas zonas do país, ainda utilizam a madeira carbonizada de árvores vivas como fonte energética. Será este, a desflorestação, um dos pontos em que o país anda à frente da média mundial. O que, a este nível, também não é brilhante, diga-se. A área florestal mundial diminuiu de 31,6% da área terrestre do mundo para 30,6% entre 1990 e 2015, segundo um relatório divulgado pela FAO, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.

Na sua edição de 2019, o estudo sobre o “O Estado das Florestas no Mundo” alerta que o desmatamento “é elevado”, embora tenha abrandado na América Latina, na África Subsaariana e no Sudeste da Ásia, “regiões onde há maior exploração de recursos vegetais, como a lenha, e onde há menos planos de protecção dos solos e da água potável.”

Tais planos, são essenciais e, que se saiba, inexistentes. O que é preocupante, num país em que as principais riquezas ou alavancas de crescimento e desevolvimento não são propriamente, como sabemos, limpas ou isentas de impacto ecológico. Longe disso. Sem a necessidade de uma aturada pesquisa, lembramo-nos que as três maiores fontes de receita do país, actualmente, e nas próximas décadas, são ambientalmente arriscadas: o carvão, maior fonte de receita de exportação da economia nacional, alimenta toda uma indústria altamente poluente que, por isso mesmo, tem vindo a ser descontinuada na Europa, nos Estados Unidos (embora Trump a tenha reactivado) e até na China (que, pelo abandono dos EUA desta corrida ecológica, tem assumido a dianteira na busca de soluções energéticas renováveis, por incrível que pareça). Depois, a segunda maior exportação nacional, o alumínio. Como é con-sensualmente aceite, também não está isento, ao longo da sua cadeia de valor, de uma série de impactos ambientais.

Por fim, o gás natural, a maior de todas as riquezas do país que, sendo uma fonte energética mais limpa que o carvão, também causa mossa nos ecossistemas marinhos junto às zonas de exploração, ainda para mais numa zona tão rica em termos de biodiversidade como Cabo Delgado.

Mas há outros exemplos que nos levam a questionar os modelos de desenvolvimento ou que, pelo menos, devem servir para que se estudem devidamente os seus impactos nocivos. Como o caso da grande exploração de pasta de papel que será ‘semeada’ na Zambézia, outro exemplo de indústria poluente que requer estudos e planos para minimizar o seu impacto.

Depois, a floresta do país reduziu para metade e ainda Moçambique não chegou ao ponto de ter uma agricultura de escala, um dos grandes motivos do desmatamento na Amazónia, em que alguém se terá lembrado que era preciso abater árvores centenárias para semear a soja de crescimento rápido, ou aumentar os acres da área de pasto para o gado bovino engordar as exportações totais de carne, decisivas na economia brasileira (aumentaram 27% só no primeiro semestre deste ano em comparação com igual período de 2018, atingindo as 828 669 toneladas, qualquer coisa como 3,1 mil milhões de dólares, de acordo com números da Abrafrigo, a Associação Brasileira de Frigoríficos).

Voltando a Moçambique, faz-me pensar que se, metade das árvores que demoram vidas a crescer morreram em menos de meia vida, e sem sofrer tanto com a agricultura ou a indústria, que sombras aí vêm com os novos ventos de crescimento que começam a soprar. Que sombra teremos daqui a 30 anos?

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