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Pedro Cativelos
October 29, 2019

Da Occidental à Total. Porque nada é acidental na Península oriental

Dizem-nos as notícias que a petrolífera francesa Total pagou cerca de 3,9 mil milhões de dólares pelos activos da Anadarko em...

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Moçambique (participação de 26,5% que era detida pela Anadarko no projecto Mozambique LNG), um negócio feito com a norte-americana Occidental que antes tinha, ela própria, adquirido a maioria do capital da Anadarko.

A Total chegou a acordo com a Occidental, a 3 de Maio deste ano, tendo garantido os activos da Anadarko em África (Moçambique, Argélia, Gana e África do Sul), onde se está a posicionar fortemente. Foi, aliás, no país vizinho que, de resto, anunciou em Fevereiro passado, uma descoberta de “classe mundial” em águas profundas, a 175 quilómetros da costa sul, de mais de mil milhões de barris de petróleo.

As notícias da descoberta chegaram numa altura em que a Total superou as expectativas de lucro, no último trimestre de 2018, que aumentou 10% no quarto trimestre para 3,2 mil milhões de dólares, tendo o lucro total aumentado 28%, para 13,6 mil milhões de dólares. Um ano de riqueza anual em Moçambique, como lucro de um exercício é, diga-se, qualquer coisa. E os números continuam a impressionar. Ao nível da produção, que aumentou 8%, com 2,8 milhões de barris por dia, enquanto o fluxo de caixa cresceu 18%, com 26,1 mil milhões de dólares. E também nos investimentos, 16 mil milhões estão programados até ao final deste ano. Sendo que estes 3,9 mil milhões já entram nesta factura. “O projecto Mozambique LNG é um activo único que corresponde à estratégia e reforça a nossa posição em matéria de GNL”, disse Patrick Pouyanné, presidente e director-executivo da Total que acrescenta, numa nota enviada à imprensa, o “total empenhamento” num projecto do qual promete retirar “o máximo partido das capacidades humanas, técnicas, financeiras e de marketing da Total para reforçar ainda mais a sua execução.” E garante também que tudo o que está para trás é para aproveitar. “É certo que se irá trabalhar nas bases estabelecidas pelo anterior operador e pelos respectivos parceiros com vista a implementar o projecto no melhor interesse de todas as partes envolvidas, incluindo o Governo e o povo moçambicano”, sublinhou. Este é, na verdade, um bom negócio para todas partes envolvidas. Para a compradora, nesta altura o segundo maior player mundial de GNL, com uma produção de cerca de 40 milhões de toneladas por ano e uma quota de mercado mundial de 10%, o “risco é mínimo” num projecto que tem quase 90% da produção já vendida, através de contratos de longo prazo com grandes compradores asiáticos e europeus.

Para a vendedora, a Occidental, que amortiza no imediato uma parte do investimento efectuado com a compra da Anadarko por 55 mil milhões de dólares, numa altura em que, para iniciar o plano de desenvolvimento da Área 1, teria de avançar com 23 mil milhões de dólares para instalar as unidades offshore, 40 quilómetros de tubagens e construir uma nova fábrica de liquefacção em Afungi, no distrito de Palma.

Naturalmente, prefere canalizar os seus recursos para a Bacia Permiana, a maior zona de exploração de petróleo de xisto no mundo, essa sim, a grande aposta da Occidental.

Depois, é também um bom negócio para o Eximbank, o Banco de Exportações e Importações dos EUA que aprovou o empréstimo de 5 mil milhões de dólares para a construção da fábrica de GNL de Afungi, um investimento que irá “impulsionar o crescimento económico, criar empregos e aumentar as receitas fiscais de Moçambique, ao mesmo tempo que apoia milhares de empregos nos EUA”, refere uma nota da Embaixada norte-americana em Maputo. Para o Conselho de Administração Exim, este é um investimento “estratégico e transformador para o crescimento económico de Moçambique.” Acredita-se que, apesar de só mencionarem os ganhos para o país, também seja um bom negócio para o próprio banco. Outro ganhador... Por fim, também para Moçambique, esta operação é positiva, uma vez que, ao que tudo indica, irá receber mais valias de 880 milhões de dólares, provenientes da transacção.

Em paralelo, e com os ataques na região num crescendo que dura há quase dois anos, o consórcio da Área 4, liderado pela norte-americana ExxonMobil, anunciou que pretende contratar empresas para construção de quartéis do exército e da polícia em dois locais na península, tendo já aberto um concurso público para esse efeito. Caso para dizer que, quando se trata de recursos naturais, tudo é negócio, mesmo a instabilidade. Ou especialmente a instabilidade. É assim que nada, mesmo nada, parece acidental na oriental Península do Norte.

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