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Pedro Cativelos
October 20, 2019

DA OCCIDENTAL AO DESAFIO TOTAL A QUE SE VAI ASSISTIR NO ROVUMA

“A anadarko moçambique área 1 (“AMA1”) tem o prazer de confirmar a conclusão bem-sucedida da aquisição da Anadarko Petroleum Corporation (“Anadarko”)

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...pela Occidental Petroleum Corporation, (ou apenas ‘Oxy’ no New York Stock Exchange), no dia 8 de Agosto de 2019.” Como resultado da fusão, garantia-se também, “a Anadarko Moçambique continuará a existir como subsidiária integral da Occidental, com os accionistas pré-fusão da Anadarko a deterem aproximadamente 16% das acções ordinárias da ‘Oxy’”. Depois, e conforme anunciado a 3 de Agosto, a Occidental “celebrou um contrato de compra e venda definitivo com a Total, segundo o qual esta irá adquirir todos os activos da Anadarko na Argélia, Gana, África do Sul e Moçambique, incluindo todas as participações da Anadarko na AMA1”, lia-se, num outro comunicado da Anadarko.

É o epitáfio bolsista de “uma jornada extraordinária, especialmente para uma empresa que começou com alguns poços de gás no Vale Central da Califórnia”, e que se encontrou, finalmente, com o seu “destino enquanto empresa de classe mundial, no centro do lugar mais dinâmico de toda a indústria global de petróleo”, escrevia Daniel Yergin, autor de “O Prémio: A Busca Épica por Petróleo, Dinheiro e Poder”. Título sugestivo, sem dúvida. Até para a Anadarko que, depois da desconfiança inicial demonstrada, através do seu presidente-executivo, Al Walker, elogiou o resultado da licitação, dizendo em comunicado estar “orgulhoso do substancial prémio” que entrega aos accionistas.

Mas quem é a ‘Oxy’?

De certa forma, a difícil batalha da aquisição da Anadarko é um retrocesso para um capítulo muito diferente da história da Occidental. De 1957 a 1990, a empresa foi liderada pelo magnata Armand Hammer, que fez grandes e arriscados negócios na Líbia e em outros pontos do mundo em desenvolvimento, com a ideia de transformar a Occidental num grande player do mundo do petróleo. Ao nível do público desinteressado pelo sector não conseguiu. Mas os negócios multiplicaram-se, e sob a sua administração, a empresa tornou-se um conglomerado com interesses em outras áreas, para lá do ouro negro, como a criação de cavalos ou o empacotamento de carne.

No entanto, nas últimas décadas, a Occidental mudou e...recuou na diversificação. Concentrou-se na Bacia Permiana, que recentemente se tornou o campo de petróleo mais produtivo do mundo e entrou na batalha de aquisições a que por ali se assiste. Quando aconteceu o colapso global dos preços do petróleo, há cinco anos, dezenas de companhias americanas faliram. Mas ali, entre o Texas e o Novo México, uma combinação de inovação tecnológica, investimentos agressivos e abundantes camadas de petróleo de xisto, transformaram um corredor outrora esgotado, no maior produtor mundial de petróleio.

Disputada nos últimos anos pela BP, a Shell, a Exxon Mobil, a Concho Resources a Apache, a Chevron e a Anadarko (para além da Oxy, claro), a Bacia tornou-se o foco da empresa que, nos últimos anos, estava praticamente empatada com a Chevron no número de acres de exploração que tinha na zona.

E é nesse ‘desempate’ que se encontram os motivos pela vontade, primeiro, da Chevron tentar ‘abocanhar’ a Anadarko (que também é um importante player da Bacia) e o da ‘vontade de comer’ a Anadarko, consumada pela ‘Oxy’, que nunca fez segredo que o foco dessa aquisição eram, de facto, os activos da Anadarko.

E que vão ser agora combinados com os seus próprios recursos na Bacia, conseguindo uma posição bem mais competitiva numa região, já fortemente disputada por outros competidores esfomeados.

E foi isto que a Oxy pagou: os 600 mil acres da Anadarko na região, que estão entre os mais lucrativos dos EUA, a presença nos campos de águas profundas do Golfo do México onde a produção tem vindo a aumentar e, claro, as operações em África.

Biliões no feminino

Vicki Hollub, directora executiva da Occidental Petroleum, tem-se mantido discreta desde que se tornou a primeira mulher a liderar uma companhia petrolífera norte-americana desde há três anos. No entanto, nos últimos tempos, começou a perder a timidez: avançou para a maior operação no oil & gas a nível mundial dos últimos anos, e até expressou publicamente o “desgosto” pelo facto de a Anadarko ter inicialmente recusado a operação da Occidental, que havia oferecido mais do que a Chevron.

Ainda assim, nem todos parecem felizes com a operação pensada por Hollub. As acções da empresa caíram mais de 6% nos dias que se seguiram ao anúncio da operação que alguns analistas de Wall Street classificaram como “uma aquisição demasiado cara.”

A Moody’s, empresa de rating, dizia mesmo que o acordo “poderia aumentar a dívida da Occidental em 40 mil milhões de dólares e que o esforço para vender activos, reduzir custos e integrar efectivamente a Anadarko poderia stressar significativamente as operações da empresa.”

Greig Aitken, director de pesquisa sobre fusões e aquisições da Wood Mackenzie, escrevia mesmo que alguns investidores da Oxy “podem achar perturbador o facto de a sua empresa estar a pagar muito mais do que a Chevron estava disposta a fazer.”

Já a Chevron, ultrapassada no negócio, pondera a aquisição de outras empresas activas na Bacia Permiana, incluindo a Pioneer Natural Resources, a Concho ou a Diamondback Energy. Mas, até ver, o mercado até reagiu bem à derrota. “A Chevron demonstrou o seu compromisso com a disciplina de capital e políticas financeiras conservadoras”, disse Pete Speer, vice-presidente sénior da Moody’s ao New York Times. E complementava: “Se a Chevron tivesse acrescentado mais dinheiro à sua oferta, como a Occidental fez há alguns dias, ela teria aumentado materialmente a sua alavancagem financeira mas enfraquecido em demasia o seu perfil de crédito”, enuiu.

Aprovação Total

A oferta de aquisição da Anadarko pela ‘Oxy’, oficialmente aprovada por 99% dos seus accionistas numa assembleia geral extraordinária até pode ter sido o maior negócio no sector, em décadas, mas colocou a petrolífera numa posição complexa e desafiante: porque comprou um activo caro e endividado, apesar de com muito potencial para ser explorado, claro. Com a passagem dos activos moçambicanos da Anadarko, agora no balanço da Oxy e com a recente FID aprovada em Junho passado, não andará longe de se tornar um novo grande player do mercado de oil & gas a nível mundial. E é nesse sentido que nada irá mudar pelo menos no que importa a Moçambique.

São os próprios (novos) donos da Área 1 que o afirmam: “A Occidental está fortemente comprometida em garantir que, durante o período em que for proprietária da AMA1, a direcção e o cronograma do projecto permaneçam inalterados. Durante as minhas discussões com o CEO da Total, Patrick Pouyanné, este expressou o forte compromisso da Total para com o projecto e de construir sobre as bases sólidas estabelecidas pela Anadarko. Como resultado, estou confiante que a estreita parceria que a Anadarko estabeleceu irá continuar e tornar-se-á mais forte”, afirmou Vicki Hollub.

Já Pouyanné, CEO da Total, reafirmava também o compromisso da empresa, referindo-se a Moçambique como “um activo único que se encaixa perfeitamente” na estratégia e competências da petrolífera francesa. “Tenham, por favor, certeza do nosso compromisso em trazer o melhor das nossas capacidades humanas, técnicas e financeiras para fortalecer a execução do projecto sobre as bases sólidas estabelecidas pela Anadarko e seus parceiros, e implementar o projecto no interesse de todos os envolvidos, incluindo o Governo e o povo de Moçambique”, complementava.

A Total, de resto, conhece bem Moçambique onde está presente no negócio dos postos de abastecimento há já largos anos. Mas na história da empresa no país há também alguns capítulos de pesquisa de hidrocarbonetos, que interrompeu há três anos nas áreas 3 e 6, por falta de descobertas que justificassem o investimento.

Agora, prepara o regresso à extracção, numa altura em que está entre os líderes de produção de gás natural liquefeito (GNL) a nível mundial, posição que será reforçada quando o consórcio da Área 1, que agora lidera, começar a produzir resultados, em 2024.

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