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Pedro Cativelos
October 28, 2019

DIVERSIFICAÇÃO E TECNOLOGIA, OS MOTORES DO CRESCIMENTO

A IV Cimeira Financial Times realizada em Maputo, levou a debate as reformas e soluções para um crescimento sustentável da economia, transformando os actuais desafios em oportunidades...

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Na quarta edição da Cimeira Financial Times realizada em Moçambique, no Hotel Polana, a cerimónia de abertura foi dirigida pelo ministro da Economia e Finanças, Adriano Maleiane, para quem o evento serve de “montra para as oportunidades” do país: “Esta cimeira é uma plataforma que nos permite trocar informações sobre todas as nossas potencialidades. Temos e fazemos muitas coisas boas, mas não tem havido a capacidade de as fazer transmitir ao mundo. Pelo que, fóruns como este servem exactamente para que as pessoas que não conhecem Moçambique comecem, pelo menos, a ter informações do que se vai fazendo por aqui”, disse Adriano Maleiane.

A tónica das apresentações e dos debates esteve centrada na diversificação da economia e na necessária introdução de reformas com vista ao crescimento sustentável, numa altura em que a economia nacional se depara com uma janela de oportunidade única, no que à entrada de grandes volumes de investimento diz respeito, associados à exploração do gás na bacia do Rovuma, em Cabo Delgado. E Chuma Nwokocha, administrador delegado do Standard Bank colocava precisamente o foco da sua intervenção neste ponto: “perante as boas perspectivas que se avizinham, será de facto urgente a capacitação das PME para que estas tenham alguma possibilidade de ter acesso às grandes oportunidades existentes, não só nos grandes projectos, mas também nos mercados regional, continental e mundial”. Também apontou prioridade: “ajudar as empresas moçambicanas, em particular as pequenas e médias, a adquirirem capacidade e conhecimento”, disse.

Mulher no centro da agenda

O empoderamento da mulher é, de resto, um tema que tem vindo a ser abordado nos últimos anos face à desigualdade de oportunidades e enquadramento social e económico a que a mulher foi votada ao longo dos anos, uma iniquidade que urge resolver, e um factor considerado fulcral para corrigir as assimetrias do desenvolvimento socio-económico do país. Foi este, de resto, um dos destaques da conferência FInancial TImes, pelo entendimento de que a diferença de oportunidades relacionadas com o género “se traduz em importantes perdas para a economia”.

Danilo Momade, Secretário Permanente do Ministério do Género, Criança e Acção Social, que fez a sua apresentação na qualidade de orador principal, destacou no entanto, um conjunto de “importantes avanços”, em resultado das políticas de empoderamento da mulher levadas a cabo nos últimos anos. “Hoje temos mais mulheres que contribuem em pé de igualdade com o homem para o crescimento e desenvolvimento económico”, assinalou, deixando no entanto. claro que, apesar de tudo, ainda é pouco. “Temos toda a ambição de remover as barreiras que ainda dificultam o progresso das mulheres nas diferentes esferas económicas e sociais”, assumiu.

Helena Chiquele, da OXFAM secundou: “quando falamos de economia e finanças, temos muito mais homens do que mulheres, porque estas são geralmente relegadas a tarefas de reprodução e estamos a lutar para que haja igualdade de oportunidades” anuiu. E prosseguiu, falando da disparidade entre o quadro legal e a situação real do país, falando de “Leis que têm sido criadas mas que, no entanto, só demonstram que ainda há trabalho que temos de fazer, especialmente ao nível das normas sociais que ‘secundarizam’ a mulher no processo produtivo”. Por isso, sublinhou o papel da Oxfam, através de sessões de formação e esclarecimento, e como esta “está a empoderar mulheres no sentido de eliminar estas formulações socio-culturais que tornam a grande maioria das decisões dependentes do homem no campo de trabalho.”

Sara Fakir, co-fundadora da IdeiaLab, fez, igualmente, menção à necessidade de “agregar conhecimentos tecnológicos à mulher” e elogiou os avanços que as plataformas de banca móvel vieram introduzir neste campo, ao permitir aquisição do saber pelas mulheres com mais baixos níveis académicos. É por isso que defende “o contínuo aprimoramento e difusão do mobile money”, enquanto fórmula propulsora da igualdede de género.

A este respeito, um bom exemplo de evolução foi trazido pela South African Airways. Thobi Duma, country manager da companhia, fez saber que “há rotas e aviões específicos pilotados por mulheres, assim como há mulheres mecânicas de aviões que realizam trabalhos impecáveis” uma mudança que, a nível interno, também a LAM tem vindo a desenvolver nos últimos anos.

Diversificação: criar o saber fazer

José Pacheco, Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, foi o orador principal do painel que se debruçou sobre o tema: “Promover uma Economia Diversificada e Competitiva”.

Na sua intervenção, revelou que o Executivo já “adoptou medidas macroeconómicas consistentes e com resultados que começam a tornar-se visíveis, com reflexos na crescente melhoria da qualidade de vida das pessoas”.

Em relação aos factores impulsionadores de mudanças no campo da competitividade, o governante apontou ao “contínuo investimento em mão-de-obra competitiva; aprovação de projectos de mão-de-obra intensiva; criação de um ambiente que facilita o empreendedorismo jovem”.

Já em relação à diversificação económica propriamente dita, “o potencial está lá”, considerou José Pacheco. “Diversidade turística e socio-cultural aliadas a um potencial energético de dimensão global” – listou Pacheco, reconhecendo que a construção e manutenção de infra-estruturas modernas e resilientes às mudanças climáticas são, no presente, “o grande desafio que Moçambique tem de ultrapassar a breve prazo, para poder enfrentar com optimismo os próximos anos com optimismo”, disse.

Ainda com este tema em pano de fundo, um outro ingrediente foi chamado incluído na receita do debate: a produção de competências enquanto fonte de inclusão da população em toda esta dinâmica de crescimento económico que se antevê para o país, na próxima década.

Misan Rewane, uma jovem nigeriana, co-fundadora e CEO da West Africa Vocational Education (WAVE) focou, precisamente, a sua intervenção nesta questão: “É tempo de os governos, sociedade civil, empregadores e todos os intervenientes do meio económico se sentarem à mesma mesa para debaterem, e delinearem os caminhos que pretendem trilhar a este respeito porque ele é decisivo” sugeriu a jovem empreendedora, para quem “a aposta na formação é a chave para o sucesso da luta que os países pobres e subdesenvolvidos travam.”

4ª Revolução Industrial

Já a fechar, um interessante debate sobre o “Impacto da 4ª Revolução Industrial na Transformação dos Negócios”, foi apresentado pelo representante da Microsoft em África, Ryno Rijnsburger.

O lema sugere, desde logo, uma questão pertinente: Qual será o verdadeiro sentido de se debater uma hipotética 4ª Revolução Industrial em África, quando metade da população africana nem sequer tem acesso à energia eléctrica, de acordo com o Banco Mundial?

No entanto, e apesar dessa e de outras realidades do subdesenvolvimento do continente a vários níveis, a verdade é que este se move a vários ritmos e há sinais de mudança. Para Rijnsburger, “basta olhar para o rápido progresso de uma tecnologia produzida aqui em África, que é o sistema de pagamento por telemóveis M-Pesa, para perceber que a 4ª revolução industrial deve estar presente nas discussões e debates sobre verdadeiro desenvolvimento, mesmo com o ainda preocupante défice de infra-estruturas na energia, ensino ou saúde”, assinalou. E para “abraçar” esse desenvolvimento que considera “inadiável”, defende o apoio “ao aprimoramento e introdução de startups e fintechs inovadoras que atribuam impulsos firmes à actividade económica, contribuindo para fazer aumentar o emprego e as desigualdades incluindo e não o contrário”,

Olhando mais ao caso de Moçambique, Rijnsburger acredita mesmo que o país “está no caminho certo”, mas não deixou de lançar um apelo, pedindo um crescente apoio por parte do Governo e de todos os parceiros de cooperação, isto porque, continuou, “a médio e longo prazo será isso que vai fazer toda a diferença no crescimento económico e desenvolvimento social de um país que tem tudo para dar certo”.

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