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Hermenegildo Langa
November 22, 2018

Embalagens, uma indústria a precisar de ganhar... embalo

Se a produção industrial ainda é o parente pobre da economia nacional, a indústria das embalagens ressente-se naturalmente disso e o que há, não chega para satisfazer as necessidades do mercado

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Fotografia
:
Jay Garrido

Num momento em que, por toda a África a produção industrial tende a ganhar peso, um segmento essencial como o das embalagens, que a nível global representa hoje qualquer coisa como 3 biliões de dólares, em Moçambique, ele ainda não ganhou o embalo necessário.

Talvez porque a própria produção ‘made in’ Moçambique continue a ser o parente pobre da economia nacional, o que leva alguns investidores contactados pela E&M a não hesitarem em afirmar que investir no negócio de embalagem no país, “é apostar num investimento sem retorno.”

O que faz falta

Quase uma década após do antigo Presidente da República, Armando Guebuza, ter recomendado a realização de reformas com vista à melhoria da imagem da apresentação dos produtos nacionais, sobretudo os agro-processados, as mudanças que foram entretanto introduzidas no sector continuam a não satisfazer as necessidades do mercado. Recuando no tempo, em finais Agosto de 2009, o antigo presidente inaugurava a 45ª edição da FACIM e constatava publicamente que a maior parte dos produtos nacionais “tinham um problema comum. A embalagem.” Farinhas, frutas, vegetais, eram até então embrulhados, expostos e vendidos em sacos plásticos, latas e garrafas reutilizadas, porque o mercado nacional não tinha capacidade de produção de invólucros para cada produto.

Quase uma década depois, o sector continua sem conhecer grandes desenvolvimentos (apesar da entrada de algumas empresas no mercado). Serão hoje cerca de 30 (chegaram a estar registadas 70) e produzem embalagens de plástico e cartonados, mas, por exemplo, o sector de vidro permanece adormecido.

O estado do sector

Tal como outras indústrias existentes no país, a indústria de embalagem ainda não conseguiu ganhar o seu espaço devido à incapacidade interna para

obter matéria-prima ao que acresce o pesado fardo burocrático que dificulta a realização de negócios neste ramo de actividade, o que só promove a existência de um segmento pouco diversificado.

De acordo com a pesquisa da E&M junto de alguns agentes deste segmento do sector industrial, existe um universo de pequenas empresas produtoras de embalagens que são insuficientes para a demanda existente. E é por isso que, a falta de uma indústria de embalagens provoca um prejuízo para a economia nacional de cerca de 120 milhões de dólares.

Estranho?  É que devido às importações de embalagens acabadas, ou de matéria-prima para a produção interna, gera-se um custo, que advém da inexistência de uma cadeia de valor que favoreça os agentes do sector.

E a ausência de uma indústria de embalagem capaz de satisfazer as necessidades do mercado interno, faz com que o país seja hoje, um dos maiores importadores de embalagens ao nível da região austral, ocupando a terceira posição depois do Madagáscar e Tanzânia.

Desperdício

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE) neste momento, 45% do volume das importações de embalagens utilizadas em Moçambique provém de África do Sul, Holanda e Portugal. “No passado, Moçambique chegou a dispor de uma indústria de embalagem diversificada, desde a plástica, de papel e cartonagem, metálica, de vidro, madeira e a sacaria diversa, como sisal, que permitiam a auto-suficiência do país. No entanto, a situação inverteu-se nos anos 80, quando a capacidade de produção reduziu e o sector de embalagem ficou paralisado”, assinala o Instituto para Promoção de Pequenas e Médias Empresas (IPEME), a instituição que tutela a área das embalagens no país. De lá para cá, o sector parece ter caído no esquecimento.

Se no passado houve no país algo parecido com uma verdadeira indústria de embalagens diversificada e capaz de satisfazer até certo ponto as necessidades internas, ao nível da oferta e da qualidade, isso já não acontece. Depois, também a oferta é pouco diversificada, inclinando-se em 90% para a produção de embalagens plásticas feitas a partir de material reciclado “desprovido de qualidade”. Os restantes 10% ficam por conta da produção de embalagens de papel e rafia.

Um estudo da Global Alliance for Improved Nutrition (GAIN Moçambique) apresentado em Junho passado,  aponta precisamente essa realidade. “As embalagens são, na sua maioria feitas com base em material reciclado, situação que contribui para a falta de qualidade nas embalagens nacionais.”

Numa alusão à ausência de uma estratégia para colocar o sector ao nível do que acontece noutros países, o estudo refere também, que “a indústria nacional de embalagens “ainda é incipiente, o que leva as empresas nacionais a apostarem na importação, que exige um exercício logístico complexo para garantir o aprovisionamento e ainda gerir o risco das variações cambiais do mercado interno e externo”, pode ler-se no estudo a que a E&M teve acesso.

Olhando ao mercado, a TOPACK Moçambique, uma empresa produtora de embalagens plásticas, considera que “a indústria continua a não ter grande expressão no mercado nacional devido à baixa produtividade do mercado interno que está aquém dos níveis satisfatórios, o que acontece por falta de matéria-prima. Por este caminho, pode dizer-se que este segmento está a caminhar a passos largos para a sua falência”, assume Arich Assane, da TOPACK.

Mudança legal

Uma das razões apontadas para este declínio do segmento apontada à reportagem da E&M por diversos agentes do  sector, foi a introdução, em 2013, de um novo regulamento sobre a produção e comercialização de produtos alimentares em recipientes plásticos. Com este novo enquadramento legal,  que só viria a ser implementado dois anos depois, ”deixa de ser permitida a comercialização de bebidas alcoólicas em recipientes de plástico e em outros permitidos para a comercialização de bebidas alcoólicas originalmente usadas para outros fins.”

Não se sabe ao certo o que terá arrastado a economia das embalagens para o abismo. De acordo com o gestor Arich Assane, “o regulamento pode não ter tido influência directa na crise do sector, mas serviu de estímulo para devastar uma área de actividade que já se encontrava em queda livre.”  

Alinhando na mesma lógica, Jorge Chissano, da empresa de processamento de embalagens RIPLEX, acrescenta que o novo regulamento “só veio sentenciar” a crise que já há algum tempo havia iniciado. “Não diria que esta falência quase colectiva é fruto do novo regulamento, mas que é indesmentível que influenciou o ambiente em que o mercado se encontra actualmente”, frisa.

Luís Barata, gestor da unidade de mercados de alimentos nutritivos da GAIN vai um pouco mais atrás na questão, e reitera que “é preciso que as produtoras de embalagens façam um estudo de mercado antes de começar a apostar na produção”. A fonte acrescenta ainda, que, “é necessário olhar primeiro para dentro, para as necessidades do próprio mercado, analisar que tipo de produtos, para que tipo de clientes, que tipo de oferta deve existir e a que é possível, face aos contrangimentos da produção nacional de matéria-prima”, aponta.

Se por um lado, o mercado das embalagens padece da insuficiência de qualidade e de matéria-prima, por outro, não existe um plano estratégico orientado para orientar e fazer crescer mercado. E é por isso que Luís Barata, considera que o mercado das embalagens no país “está desenvolvido de uma forma precária e ambígua”, de tal forma, diz, “que, denota uma descontinuidade a vários níveis, como é o caso da falta de ligação entre produtores e possívels clientes. A formação não está alinhada com a demanda do mercado e o sector privado tem uma capacidade limitada para proceder a investimentos”. E continua: “os produtores nacionais, desconhecem a existência de fornecedores ou empresas que fabriquem embalagens internamente. Creio que há, também, um défice de comunicação a esse nível. Como é possível um produtor ou uma empresa que produz milho em Nampula não saber que existe na mesma província uma indústria de processamento embalagens? A cadeia de valor entre os produtores alimentares e as empresas deste ramo têm de estar sempre ligadas de modo a que ambas se complementem dentro do mercado”, defende.

Entretanto, mesmo diante de todos os problemas apontados, o responsável da GAIN, “vê um enorme potencial neste mercado, porque o desafio da produção interna, ao nível do agro-processamento, por exemplo, está a ser encarado com grande seriedade nesta altura e será necessária, mais do que nunca, uma indústria forte que consiga dar resposta a essa demanda. Para isso, é necessária uma indústria de papel e de vidro no país, Se formos a ver, a nossa indústria de embalagem, principalmente plástica, é suportada pela reciclagem. O restante é importado, e isso terá de mudar“, diz. A GAIN entende que “há todas as condições para a existência de uma indústria de produção de matéria-prima para fomentar as empresas de embalagens. uma situação que iria resolver os problemas enfrentados pelas empresas de embalagens.”

Mas, para isso, claro, é preciso também um enquadramento fiscal que promova o investimento nesta área de mercado, “A falta de incentivos fiscais e de facilidades para o acesso ao crédito é outro problema que os investidores do sector enfrentam.”

Tamanho importa

Nilsa Miquidade, Directora Nacional da Indústria, considera existir “uma indústria de embalagem no país, mas que precisa de um investimento forte do sector privado para o seu reatamento.” Nesse sentido, revela estar em curso “a definição de um plano estratégico para atrair investidores para apostarem no desenvolvimento deste segmento no país.”

Mas enquanto eles não chegam, a GAIN recomenda aos produtores das embalagens algumas medidas para contrariar a onda negativa que parece ter tomado conta deste mercado. Para começar, a aposta em embalagens de dimensão mais reduzida, “de modo a possibilitar maior capacidade de entrada no mercado.

As empresas ainda não produzem de acordo com as necessidades e requisitos do mercado, uma vez que grande parte da população moçambicana está tipificada como sendo de renda baixa.

E o que está a acontecer é algo que contraria isso, ou seja, aposta-se em formatos de grande dimensão para os quais, muitas vezes, não há procura directa.”

Pode parecer estranho, que algo que a maioria de nós utiliza quotidianamente, nunca seja alvo de muita atenção, na avaliação de um produto. A verdade é que se o ditado diz que não se deve julgar o conteúdo pela embalagem, em linguagem económica, não é bem assim, até porque falamos de uma indústria que anualmente movimenta no mundo, perto de um bilião de dólares em vendas.

“É um facto. Na verdade, a embalagem conta mesmo... nas contas finais da economia. E este estudo da GAIN feito sobre uma matéria que tem implicações no mercado produtivo, no emprego formal e na segurança alimentar, por exemplo, já para não falar das contas macroeconómicas relacionadas com a diminuição da factura das importações, algo fundamental para o país, tenta oferecer ferramentas adequadas aos agentes do sector para serem utilizadas na reactivação de uma indústria estruturante da nossa economia”, considera Luís Barata.

Resta esperar que a produção nacional aumente, que os agentes do mercado aguentem e que o país passe a olhar mais para os seus produtos e se lembre de não deitar fora as embalagens.

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