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Hermenegildo Langa
October 24, 2019

FUTURO DO SECTOR FINANCEIRO (E DA ECONOMIA) PASSA PELA DIGITALIZAÇÃO

A Conferência E&M-Deloitte sobre Transformação Digital e Inovação no Sector Financeiro lançou o debate sobre os grandes desafios que se colocam a Moçambique, fruto do avanço da era digital

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A e&m em parceria com a deloitte moçambique organizou, a 26 de Setembro, a Conferência ‘Transformação Digital e Inovação no Sector Financeiro’. Juntando os principais intervenientes do sector, no sentido de debater aquele que é um dos grandes desígnios do país, em termos do seu desenvolvimento — a inclusão financeira, que apesar do crescimento substancial que tem vindo a conhecer graças às soluções móveis ainda é fraca, com apenas 20% dos adultos com acesso aos serviços bancários e 40% aos serviços financeiros não bancários promovidos por instituições de moeda electrónica,

segundo dados da FSDMoç, de 2017. Estamos ainda longe de poder responder à meta de cobertura de 35% da população adulta até 2022, conforme o preconizado na Estratégia de Inclusão Financeira em vigor deste 2016, mas os avanços têm sido assinaláveis, ainda assim.

Questões estruturais

Na conferência, marcada pela adesão dos principais players do mercado, várias questões mereceram atenção nos três painéis de debate em que a questão das infra-estruturas, segurança cibernética e maior interacção entre os diferentes provedores de serviços fi-nanceiros dominaram as conversas. Foi esta, de resto, a primeira preocupação apresentada por Rogério Lam, director-central das direcções de marketing e de canais electrónicos do BCI, logo no primeiro painel (moderado pelo líder da área digital da Deloitte África, Valter Adão). Lam reconhece que, “com a deficiente disponibilidade de infra-estruturas, muito do que foi conseguido até hoje em termos de crescimento nas zonas rurais, urbanas e peri-urbanas, foi graças aos operadores de telefonia móvel”. Só que nem estes estão isentos das limitações impostas pela falta de estradas e de energia. “O desafio começa aí, nas infra-estrutras. E quando passamos para a fase seguinte, que é a digital, encontramos desafios ainda maiores: o custo de dados é extremamente elevado e a disponibilidade da rede de dados, mesmo em zonas urbanas, ainda é um enorme desafio”, revelou, sugerindo mais investimentos em meios que facilitem a expansão tecnológica, a exemplo do que se passa em mercados mais amadurecidos.

Transformar competências

A questão dos dados dominou, naturalmente, as conversas, porque pensar em digitalização dos serviços financeiros sem internet não é possível. E essa evolução tem-se feito sentir no aumento da capacidade da banca chegar a um cada vez maior número de moçambicanos. Assim, serviços que antes eram acessíveis no contacto com o agente, ou num balcão, hoje realizam-se em tempo real via telemóvel. Mas há desafios. “Como assegurar que a tecnologia dá a segurança aos colaboradores de que o seu emprego não está ameaçado?”, questiona o administrador-executivo do Millennium bim, Jorge Octávio, que garante, a seguir, não haver riscos de que a inovação venha a desempregar profissionais da área: “se automatizamos tarefas repetitivas, passamos a ser controladores dos sistemas, acrescentando-lhes valor. Temos é de ter a capacidade de explicar

às pessoas que a transformação digital não extingue o trabalho, mas irá por certo mudá-lo”.

Jorge Octávio também se mostra preocupado em relação à segurança na utilização de dados (tema que viria a ser aprofundado na segunda parte da conferência). “Não são apenas as infra-estruturas que têm de ser protegidas mas é preciso mais cuidado… Temos de assegurar que os nossos clientes compreendem estes aspectos de segurança das suas contas e saibam defender-se de assaltos de entidades que queiram assumir a sua identidade digital”, defendeu.

Concorrência: boa ou má?

Ainda no primeiro painel, Gulamo Nabi, director-geral da M-Pesa, deu a entender que há objectivos comuns que ficam difíceis de concretizar pela necessidade de salvaguarda de vantagens concorrenciais. Explicou que o M-Pesa, por exemplo, “poderia ser expandido” para clientes de outras operadoras de telefonia móvel (Tmcel e Movitel), mas enfrenta “barreiras” por parte destes provedores. “Temos tido apoio das autoridades reguladoras, temos acesso a um código USSD universal, mas conseguir a ligação física é um problema porque os provedores dos serviços das telecomunicações têm produtos concorrentes” explicou.

Se o M-Pesa não vê qualquer problema ao nível da relação aos aspectos regulatórios, o mesmo não se pode dizer em relação aos operadores da banca tradicional. A este nível, e para acelerar a expansão da inclusão financeira, Rogério Lam defende a redução dos procedimentos para abertura de contas em bancos tradicionais para os equivaler aos requisitos bastante mais simplificados requeridos pelas instituições de moeda electrónica (Bilhete de Identidade e NUIT geralmente são suficientes). Além disso, assumiu que “é preciso adequar o regulamento face aos requisitos do agenciamento bancário, mais flexível do lado das instituições de moeda electrónica do que do lado da banca tradicional, pelos requisitos exigidos para ser agente bancário”, completou.

Denise Cruz, que lidera a área digital do Barclays Moçambique, direccionou a sua abordagem para uma análise mais abrangente, e falou da necessidade de criar o que chamou de ‘cultura digital’. “No caso de Moçambique, o Governo, como maior empregador, tem um elevado número de transacções mas nota-se que, na sua maioria, ainda não são digitais. A adesão das instituições do Estado às plataformas digitais seria importante na difusão desta cultura digital, acabando por contribuir para uma maior inclusão financeira”, anotou.

Um olhar sobre os crimes cibernéticos

Para novos desafios, novas soluções. Porque é impensável imaginar todo este mundo de desenvolvimento do sistema financeiro sem o devido acompanhamento da ciber-segurança, no segundo painel, os crimes cibernéticos no sector financeiro foram analisados, atra-vés de uma apresentação do especialista da Deloite, Frederico Macias. Recorrendo a um estudo do World Economic Forum de 2015, explicou que “os ciber-crimes aumentam mais que os de narcotráfico, chegando a representar 1% do PIB global”.

E isso acontece porque a capacidade de resposta não evolui ao mesmo ritmo da transformação digital, mas não só. Frederico Macias destaca “a urgente necessidade” de formar pessoas que acompanhem a evolução do sector bem como de uma “cada vez maior aposta” por parte das organizações nesta matéria. “Temos de começar a tomar as medidas necessárias de modo a combater ou reduzir a incidência dos ciber-crimes”, referindo-se, por exemplo, ao investimento, por parte das organizações, “na contabilização dos seus activos tangíveis para depois definir quais serão as métricas de investimento na segurança”. Para Macias, “investir neste aspecto é um imperativo a todos os níveis. Mesmo para poder competir no sector da banca, é preciso investir na segurança cibernética”, defende o especialista.

Na sua visão, “sozinhas, as organizações nunca vão conseguir tratar os problemas de ciber-segurança. A complexidade tecnológica e o desenvolvimento acelerado deste tipo de crimes exige que sejam tratados em conjunto. Portanto, há necessidade de o Governo ser mais estratégico para lidar com estas situações. Mas também temos de ser treinados para responder a estes incidentes”.

Avanços no comércio externo

Par além do sector financeiro, a transformação digital é um dos ingredientes indispensáveis para a competitividade económica, já para não falar do desenvolvimento humano. No terceiro painel da conferência E&M, um conjunto de “Casos Práticos” a ilustrar esta realidade. Guilherme Mambo, membro do Conselho de Administração da MCNet, empresa que gere a Janela Única Electrónica (JUE), fez uma radiografia do “antes e depois”, da implementação da JUE, em 2010. Explicou então que “uma transacção regular de importação ou exportação envolve em média cerca de 30 indivíduos e/ou instituições, mais de 40 documentos, inserção de dados em mais de 200 campos dos quais 60-70% são inseridos pelo menos mais de uma vez e, em alguns casos, o custo do cumprimento das formalidades aduaneiras é superior ao custo das imposições a pagar”.

Um mapa de formalizações complexas que tem custos na performance operacional de centenas de empresas. Ou tinha, porque com a JUE, “os sistemas geram 37 080 transacções por hora e mais de 900 000 por dia; 600 relatórios automatizados são distribuídos mensalmente; 14 bancos comercias e 500 agências de todo o país processam agora o pagamento de imposições aduaneiras ao Estado, número acrescido de mais de 30 instituições financeiras (bancos e seguradoras) que emitem garantias para o processo de desembaraço, num total de cerca de 4 200 utilizadores registados. Com tudo isto, o tempo de desembaraço aduaneiro de mais de 60% das mercadorias caiu de mais de 30 dias para apenas um dia”, enunciou.

Mercado mais dinâmico que o de Angola

Outro dos casos práticos apresentados na conferência da E&M foi o da Empresa Interbancária de Serviços de Angola (EMIS), representada por José Gualberto de Matos. A ideia era trazer um exemplo externo enquanto forma de olhar o próprio sistema interbancário nacional, sob outras perspectivas e experiências. A apresentação referiu os números do crescimento de pontos de acesso e de agências bancárias num mercado naturalmente diferente, ao nível da evolução, do moçambicano. No entanto, José de Matos mostrou um conjunto de indicadores que ilustram uma taxa de bancarização em crescendo nos últimos anos (ao nível das agências e transacções bancárias de uma forma geral). No entanto, muito ainda há por fazer, disse: “Devo dizer que estou bastante impressionado com a dinâmica que, aqui em Moçambique, estão a imprimir no sistema de pagamentos. Nós, em Angola, temos pena de não termos o M-Pesa. Claro que há um preço a pagar por essa dinâmica, que é o problema da interoperabilidade, mas é melhor ter um sistema que não tem interoperabilidade do que ter interoperabilidade e não ter sistema”, disse.

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