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Elmano Madaíl
January 2, 2020

IGNORÂNCIA MÚTUA E FALTA DE DIÁLOGO CONTAMINAM RELAÇÕES LABORAIS

O fosso cultural que ainda divide uns e outros é mais notório em contexto la¬boral – no qual, tipicamente, o imigran¬te português é o empregador e o nati¬vo moçambicano o empregado...

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onde as percepções de cada qual em relação ao outro revelam muita estranheza e grande ignorância. De parte a parte. E ambas decorrentes da falta de uma comunicação que, indo além da pragmática funcional que preside às relações de trabalho, procure entender a pessoa que existe por detrás do patrão e do funcionário.

Estas são, em termos muito simplificados, as grandes conclusões obtidas até agora pelo trabalho de investigação que Lisa Åkesson, professora catedrática em Antropologia na Universidade de Gotemburgo, Suécia, está a desenvolver com Inês Macamo Raimundo, docente em Geografia Humana na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), desde 2018.

Intitulado “Migrantes portugueses em Moçambique - pós-colonialismo e troca de conhecimentos”, o trabalho partiu de duas questões basilares: primeiro, saber como é que os portugueses falam dos seus funcionários moçambicanos e como é que os moçambicanos qualificam os patrões portugueses; depois, indagar que tipo de ideias e competências profissionais os portugueses transmitem aos moçambicanos e o que é que estes procuram ensinar aos portugueses.

Para isso, foram ouvir as pessoas. Além de compulsar a literatura académica, fizeram 66 entrevistas presenciais – 36 com moçambicanos e 29 com portugueses – para ouvirem, de viva voz, a verdade de cada qual. As conversas com os portugueses, diz a antropóloga sueca, que contou com os bons ofícios da AP – Associação Portuguesa de Moçambique nos contactos preliminares, foram “mais fáceis” do que com os moçambicanos: “Alguns tinham medo de falar – receavam que fossemos contar aos patrões o que nos tinham dito”, justifica Inês Raimundo. Garantida a confidencialidade e superadas as reservas, falaram todos. E muito

A linguagem da discórdia

É pela palavra que se chega ao outro – como enuncia o livro mais vendido de todos os tempos, a Bíblia, “no princípio era o Verbo” (João 1:1). E é também nele que radica um dos principais equívocos: “As percepções dos moçambicanos em relação aos portugueses são muitas e diversas, mas a principal refere-se à linguagem. Para os moçambicanos, os portugueses usam muito calão, demasiados palavrões que são entendidos como insultos, como humilhações deliberadas, senão até mesmo como racismo disfarçado”, diz Åkesson. Estas situações ocorrem, na esmagadora maioria dos casos, nas pequenas empresas e, principalmente

Desenrascanço depreciado na folha salarial

Desvalorizados acham-se os moçambicanos com a desigualdade salarial entre indivíduos com a mesma categoria profissional mas nacionalidade diferente – com vantagem para os portugueses – e o desrespeito pelas leis de trabalho, cenário este que “varia de em-presa para empresa, sendo que, nas grandes firmas, estes casos foram menos reportados”, refere Inês Raimundo. A professora da UEM sublinha que “a sensação dos moçambicanos é a de que, por mais qualificações que tenham, perante um colega estrangeiro de igual categoria, têm sempre que provar as suas competências e o imigrante não”.

Existe, porém, certo paradoxo neste âmbito: é que se os profissionais moçambicanos são, alegadamente, menos considerados na folha salarial do que os pares estrangeiros, a sua capacidade para resolver contrariedades (de se “desenrascarem”) é muito celebrada pelos patrões portugueses.

“Um deles disse que, ao nível técnico, os moçambicanos são bons e deu como exemplo os carros que, em Portugal, quando param vão para a sucata e aqui consegue-se pô-los na estrada outra vez. E quando falta uma peça e é preciso esperar que venha da África do Sul, é melhor deixar o moçambicano a trabalhar o assunto porque ele vai conseguir adaptar e resolver o problema”, refere Åkesson.

Trocar a técnica pelo civismo

E, no entanto, quando interpelado sobre os maiores defeitos dos empregados nativos, a resposta quase universal do patronato português é a de que “não sabem trabalhar”. A alegada lacuna é superada amiúde pela transferência de conhecimentos, a qual é indicada pelos moçambicanos como das maiores virtudes do patronato português – além do facto de pagar sempre a horas. “A grande diferença em relação aos empregadores moçambicanos é que os portugueses sempre pagam no fim do mês e são bons a ensinar e a instruir”, indica Lisa.

O ensino tem dois sentidos: se os moçambicanos admitem que os portugueses lhes facultam conhecimentos técnicos, também sentem que têm o dever moral de ensinar algumas regras de civismo aos patrões. E para Åkesson, “este é um dos resultados mais interessan-tes deste trabalho, porque é o inverso da situação colonial”.

O ensejo fica algo comprometido, todavia, quando no topo das queixas dos empresários portugueses avulta o furto: “O trabalhador moçambicano rouba muito, queixam-se os patrões”, para grande surpresa da sueca, a qual, tendo desenvolvido investigação semelhante em Angola, entre 2013 e 2015 (“Portuguese Migration To Angola – Migrants or Masters”), não encontrou tais alegações na comunidade lusa instalada naquele território.

Equívocos mortais

O maior problema nas relações de trabalho entre portugueses e moçambicanos continua a ser, no entanto, o desconhecimento cultural, ignorância que leva a equívocos tantas vezes insanáveis, com os moçambicanos a considerarem-se desrespeitados naquilo que é o âmago das suas crenças e tradições. Especialmente em relação aos funerais. Na cultura local, há uma relação muito forte com os mortos, sendo fundamental a participação nas exéquias, não apenas da família mais íntima, mas também dos amigos e vizinhos. “E os moçambicanos entendem que, quando não são autorizados a participar nos funerais, estão a acabar com a sua cultura”, diz Lisa.

Inês Raimundo explicita melhor esse sentir moçambicano que, não raro, é entendido pelo racionalismo ocidental, próprio do patronato português, como mera fuga ao trabalho: “Para nós, moçambicanos, a relação com os mortos é muito mais essencial do que a relação com os vivos, pelo que é muito importante ter a noção de que se um dia eu morrer, alguém me irá sepultar – por isso é fundamental participar de um funeral”, explica a docente da UEM, ilustrando: “Se visitar os nossos cemitérios, vai ver aqueles mausoléus todos majestosos feitos por pessoas cuja própria casa, se calhar, é uma choça”.

“Graças a Deus que já reduziu, mas, antigamente, as exéquias duravam sete dias, em que a família directa do morto é obrigada a alimentar e acolher os participantes, os quais, por sua vez, levam bens alimentares e outros para atenuar a perda da família do defunto. Mas os portugueses não entendem isso. E deviam, porque quem chega deve procurar a integração na cultura local”, refere, “até porque houve muitos portugueses, ainda na época colonial, a fazer estudos sobre a cultura local”.

A pacificação dialógica

Ora, um dos resultados imediatos do estudo de Lisa Åkesson e Inês Raimundo, financiado pelo Conselho de Pesquisa da Suécia (Swedish Research Council, agência governamental) é que há, ainda, “um enorme desconhecimento de ambas as partes, que criam imagens estereotipadas uma da outra, com queixas mútuas, mas sem que haja um diálogo franco e aberto”, lamenta Åkesson.

As investigadoras esperam contribuir, com este trabalho que prevêem concluir nos fins de 2021, para uma aproximação entre as partes, as quais, dizem “deviam falar de maneira mais íntima, mais profunda, mais aberta, sem preconceitos uma da outra”. E com isso, contribuir para a pacificação das relações laborais luso-moçambicanas e reforçar os laços que unem uns e outros, que re-montam, afinal, a 1498, quando Vasco da Gama aportou em Inhambane e ali conheceu a “boa gente” de Moçambique.

TEXTO ELMANO MADAÍL

FOTOGRAFIA JAY GARRIDO

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