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Celso Chambisso
November 22, 2018

Inhambane, onde a economia nacional tira férias

A “terra de boa gente” é uma réplica da imagem do país. A província reúne o melhor de cada uma das restantes, mas não passa de potencial. E as mudanças exigem trabalho a ser coordenado entre sectores

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Celso Chambisso
Jornalista
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Inhambane tem gás como Cabo Delgado; areias pesadas como Gaza e Nampula; tem calcário como Maputo e Sofala, terras férteis e potencial agrícola como toda a extensão do país. E é uma referência nacional do turismo como não haverá outra igual, sendo um destino reconhecido internacionalmente. No entanto,  é uma província com elevados índices de pobreza e apresenta um rendimento per capita abaixo da média nacional.

Para perceber a dinâmica económica de Inhambane, importa que lancemos um breve olhar sobre os sectores mais importantes da província, com foco nos desafios, oportunidades e perspectivas.

Turismo subaproveitado

A economia de Cabo Verde, um exemplo a esse nível em toda a África (e muitas vezes trazido a debate aqui em Moçambique), tem no turismo o seu principal pilar. E isso acontece porque cedo o Governo se apercebeu do enorme potencial e investiu seriamente no sector do ponto de vista estratégico, criando facilidades para que o empresariado local e estrangeiro expandisse as suas iniciativas.

Estatísticas recentes indicam que o turismo é responsável por 20% de toda a riqueza produzida no arquipélago e pela criação de cerca de 8 mil empregos.

Por todas as razões que quem conhece Inhambane reconhecerá, por ali, o potencial para alcançar algo idêntico, é assinalável. Mesmo que pareça estranha a comparação entre uma província e um país. Com uma superfície 17 vezes maior que a de Cabo Verde (68 mil quilómetros quadrados contra 4 mil quilómetros quadrados do arquipélago), uma população três vezes maior (1,5 milhões de habitantes face aos 561 mil habitantes em 2017), e um litoral de mais de 700 quilómetros, Inhambane poderia estar num patamar que se equiparasse ao das outras geografias bem-sucedidas ao nível do turismo.

Se Cabo Verde – país que tal como Moçambique tem 43 anos de independência – tem a grandeza e respeito internacionais no que diz respeito ao desenvolvimento do sector, o estágio de Inhambane e do país como um todo (turismo produz apenas 3% da riqueza total) denuncia uma fragilidade que deve ser identificada e colmatada com acções que tornem visíveis os vários planos já existentes.

Esta comparação pode deixar de fora muitos elementos importantes de análise. Mas pelo menos serve para mostrar que Inhambane, a “Província do Turismo” é ainda apenas um slogan que fica bem num postal e que não corresponde à realidade do que poderia ser um sector desenvolvido e que contribuísse significativamente para a capacidade de captação de receitas.

Ao contrário, não existem estatísticas fiéis sobre receitas e postos de trabalho e o sector vai-se debatendo com vários problemas. “Os desafios são enormes e somos obrigados a mudar as coisas investindo mais na vertente estratégica porque a cadeia de valor é vasta e pode trazer grandes benefícios ao país através da captação de receitas”, reconhece Yassin Amugi, presidente da associação de turismo de Vilankulos, principal destino turístico da província e do país. Ele sugere um trabalho “articulado entre os sectores público e privado” para que o produto turístico (conjunto de factores que atraem o turista) “esteja completo, explorando num único pacote o turismo de praia, o safari e a exploração dos aspectos culturais, da gastronomia ao artesanato.”

Dar gás às oportunidades para o empresariado

O despreparo do empresariado nacional para assumir a vanguarda no estabelecimento de negócios com os grandes projectos tem sido debatido.

Em Inhambane, está presente a multinacional sul-africana Sasol, que explora gás nos campos de Pande e Temane há já 14 anos. A petrolífera está aberta a contratar produtos e serviços de empresas locais, e se tal não acontece é porque há fragilidades internas (de ordem financeira, contabilística e organizacional, no geral), segundo reconheceu recentemente o Conselho Empresarial de Inhambane.

Durante o Fórum Regional (Sul) do Sector Privado, realizado em Julho passado naquela província, a Sasol divulgou um guião para orientar as empresas sobre o processo de compra de bens e serviços, em que, de resto, ilustra oportunidades de negócios em áreas que incluem: gestão de resíduos (industriais e domésticos); serviços de assistência médica à distância; serviços de soldadura; serviços de manutenção (civil e eléctrica); agência de recursos humanos; agência de comunicação; serviços de combate a incêndios; tratamento de água, entre outros.

As oportunidades estão lá. Compete ao país assegurar que haja capacidade de resposta à demanda da Sasol, potenciando o aumento de postos de trabalho.

Atenção às areias pesadas de Jangamo

Também é preciso redobrar atenção às oportunidades que serão geradas no distrito de Jangamo, onde existe um projecto para a exploração de areias pesadas, consideradas como sendo de qualidade assinalável. A Mutamba Mineral Sands, uma subsidiária da Savannah Resources, submeteu ao Ministério dos Recursos Minerais e Energia três pedidos de licença para explorar a mina.

Agronegócio semeia oportunidades

Claro que a agricultura também é um dos sectores com maior potencial na região. Um exemplo bem-sucedido é o da DADTCO, uma empresa que transforma a mandioca adquirida a centenas de pequenos produtores locais para alimentar a indústria da cerveja e panificadora.

A exemplo desta indústria, Inhambane oferece oportunidade para o processamento de caju e côco. Álvaro Massinga, vice-presidente da Confederação das Associações de Moçambique (CTA – entidade que representa oficialmente o empresariado nacional), afirma à E&M que “há um crescente interesse dos empresários neste domínio e promete para breve a instalação de unidades industriais neste domínio.

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