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Hermenegildo Langa
October 20, 2019

MACANETA GANHOU VIDA COM A PONTE

Às portas de maputo (a pouco mais de 40 quilómetros) mora um paraíso natural, ainda hoje, pouco explorado.

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Fotografia
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Apesar da proximidade da capital, a Macaneta nunca foi, no entanto, o destino principal de férias de quem vivia em Maputo. Muito por culpa das dificuldades do acesso que tinha de ser cumprido, morosa, e desorganizadamente, como muitos certamente se lembrarão, por via de um batelão que fazia prolongar uma viagem, hoje feita em 30 minutos, numa penosa aventura de duas horas. No entanto, esses problemas são hoje apenas memórias longínquas. Tudo porque a partir de Novembro de 2016, foi inaugurada a ponte que atravessa o rio Incomáti que liga a Vila de Marracuene e a localidade de Macaneta.

Assim, passados quase três anos de funcionamento da infra-estrutura, e se no passado aquele destino turístico conseguia receber pouco mais de 100 mil turistas por ano (de acordo com estimativas dos empresários locais), mesmo com todas as questões relacionadas com a transitabilidade, acredita-se que hoje o número quase tenha triplicado, visto que lugares de atracção de turistas — mais de 110 — é o que mais abunda na pequena localidade, entre os que estão em funcionamento ou os que ainda estão em fase de projecto.

O desenvolvimento turístico é, pois, um dos exemplos que elucidam a evolução trazida pela nova infra-estrutura, sendo que muitos agentes turísticos que lá operam não hesitam em afirmar à E&M que Macaneta “se transformou num dos pólos de maior desenvolvimento turístico do país”, dizem-nos.

As opiniões, multiplicam-se. “Já não temos motivos para reclamar, a ponte galvanizou tudo”, garantiu Elvis Barros, gestor da Sunrise Lodge Macaneta.

Mais negócios

Quem já começa a esfregar as mãos de contente são os operadores turísticos, claro, porque o negócio começou a fluir como nunca. E nos dias que correm, turistas é o que não falta por ali, mesmo que, na sua maioria, ocasionais, de fim-de-semana, para apreciar a paisagem das águas azuis e tudo aquilo que a natureza ainda pouco tocada pode oferecer.

Para o presidente da Associação dos Agentes Económicos de Marracuene (AGEM), João das Neves, “a ponte veio aumentar de forma significativa a procura de serviços de turismo na região. Não há dados estatísticos, mas sente-se que o nível de receitas provenientes do turismo triplicou nestes dois últimos anos, em resultado da disponibilidade da ponte”, assegura, para depois sublinhar que “há uma grande oferta de serviços de hotelaria e restauração ao longo da praia, mas muitos outros estão ainda em construção”.

Mais do que isso, a ponte não só fomentou o número de turistas, como também acabou por facilitar a instalação de novas estâncias turísticas dinamizando o desenvolvimento no local até pelo facto de, segundo João das Neves, “haver pessoas da cidade de Maputo que agora começaram a instalar as suas residências e negócios na Macaneta. E a razão não seria outra, se não estar mais perto do local de lazer tendo, com isso, melhor qualidade de vida.”

A mesma fonte explica também à E&M que a Estrada Circular de Maputo (que liga a capital a Marracuene) é um outro factor que veio impulsionar o turismo em Macaneta, pois acaba por facilitar a circulação de pessoas e bens. “Naturalmente que veio aliviar as dificuldades que a população tinha de se aproximar do desenvolvimento e trouxe, por outro lado, uma oportunidade para os agricul-tores e pescadores da Macaneta, facilitando as suas vidas para levar os produtos aos grandes mercados de Maputo”, considera o presidente da Associação dos Agentes Económicos de Marracuene.

Carol Dias, gestora do Lodge ‘Lugar do Mar’, destaca os benefícios que a ponte trouxe à localidade da Macaneta, afirmando mesmo que “veio colocar Macaneta num lugar de topo, onde sempre devia ter estado ao nível da província de Maputo. Agora já não temos motivos de queixa. Por exemplo, na quadra festiva passada, esgotámos todas as reservas,”, enfatizou.

Turismo doméstico com muito peso

Se, por um lado, a entrada em funcionamento da ponte sobre o rio Incomáti galvanizou a entrada de investimentos públicos e privados na localidade e aproximou toda a província de Maputo das praias de águas azuis e areias brancas, por outro, estimulou a prática de turismo doméstico que, antes, se deslocava para as praias do Bilene, Xai Xai e Ponta do Ouro. No entanto, nem tudo é positivo. “De certa forma, a enorme afluência afugentou uma parte daqueles turistas que tradicionalmente vinham visitar a Ma-caneta”, explica João das Neves.

No entanto, apesar disso há que assumir que o sector turístico de Macaneta esteve sempre, ao longo das últimas décadas, muito vinculado ao mercado sul-africano. E o surgimento, em força, do turismo doméstico fez com que alguns turistas sul-africanos que, tradicionalmente, eram os mais avistados por ali, e que tiveram um importante papel no desenvolvimento do turismo de Macaneta, se retraíssem e escolhessem outras paragens. Já ao nível dos preços, e mesmo com a entrada em funcionamento da ponte, continuam a ser competitivos e a inflação não se fez notar. É isso mesmo que nos garantem alguns agentes locais, e uma observação no local. “Os preços continuam a ser muito competitivos e acessíveis para o mercado da classe média, em relação a outros pontos turísticos da região”, garante a gestora do ‘Lugar do Mar’.

Problemas ambientais são um grande desafio

São questões que se colocam sempre que o desenvolvimento chega em forma de crescimento urbanístico, multidões e automóveis, com as consequências imediatas da erosão num sistema que não está preparado ao nível das infra-estruturas sanitárias e sociais. É por isso que a gestão ambiental, sobretudo dos resíduos sólidos, já se tornou um desafio para a comunidade da Macaneta, sobretudo para os operadores turísticos, aqueles que mais recebem (e de forma directa) reclamações dos turistas.

Segundo João das Neves, o desenvolvimento que se torna hoje facilmente observável na Macaneta “não é estruturado e muito menos planificado a médio e longo prazos.” Desse rápido crescimento, que se vai verificando em outras zonas do país em situação semelhante (como na Ponta do Ouro, após a entrada em funcionamento da nova estrada e ponte, por exemplo) não está a ser acom-panhado das necessárias infra-estruturas básicas, sobretudo de segurança, saúde e saneamento. “É preciso que se trabalhe no plano de desenvolvimento de toda a região, envolvendo os actores locais. O que acontece agora é que os problemas ambientais, sobretudo relacionados com a existência de mais resíduos sólidos, já estão a tornar-se evidentes, e a levar à necessidade de criação de meca-nismos de desenvolvimento estruturados de modo a transformar a Macaneta num destino turístico de excelência”, defende o empresário João das Neves.

Mais do que isso, questões relacionadas com a segurança (em terra e no mar) também se têm mostrado como um novo desafio às autoridades locais, uma vez que, segundo contam os operadores turísticos da Macaneta, o número do pessoal do corpo de salvação “é ainda muito reduzido” e não são poucas as notícias de afogamentos provocados pela agitação marítima. A seu tempo, iremos perceber se a maré cheia de turismo se traduz, de facto, em maior desenvolvimento.

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