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Redacção
January 29, 2020

MEZIMBITE FOREST CENTER OU A RIQUEZA DE FLORESTA

Quis a geografia da vida que Allan Schwarz assentasse na cidade do Dondo, em Sofala. Formado em arquitectura, design sustentável e marcenaria criou um lugar onde a floresta transforma vidas

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Mais do que uma dádiva da natureza, a floresta oferece tudo o que é preciso para viver e até os seus desperdícios podem resultar em negócio. Madeiras, frutos silvestres e centenas de plantas estão, literalmente, à mão de semear, à espera de serem transformados mas, para que tudo aconteça, é preciso acreditar, mesmo que não se veja logo o resultado final. É isso que nos conta Allan Schwarz, o mentor do Mezimbite Forest Center: “Temos de pensar que há 30 anos a sustentabilidade não passava de uma ideia de alguns poucos loucos e nem se falava em peças feitas a partir dos desperdícios florestais. Foi assim, nesse contexto, que eu comecei a desenhar algumas para provar que era possível”.

Da ideia ao negócio

O arquitecto foi uma das primeiras vozes mundiais a defender a sustentabilidade. Claro que, à época, foi pouco ouvido. Até por isso, teve de prosseguir a carreira e ganhar a vida a desenhar projectos de arquitectura mais convencionais no Japão, Islândia e Estados Unidos da América. “Não eram projectos sustentáveis porque naquele tempo não havia essa preocupação”, recorda. Mas, curiosamente, foi esse o destino que o trouxe a Moçambique. “Ao fazer uma obra em Madagáscar, percebi que muito perto, em Moçambique, havia praias muito bonitas. Fiz um estudo de viabilidade para um projecto direccionado para o turismo mas, percebi que nesse tempo, estávamos em 1992, apesar de já haver estabilidade, o país não estava preparado para o investimento que era necessário fazer”. O projecto não avançou como estava desenhado, mas ficou o ‘bichinho’.

E foi isso que o “obrigou” a encontrar uma outra solução para viver na terra de beleza natural e das gentes afáveis, mas ainda com pouca preparação para desenvolver o maior sector económico, a agricultura. O cultivo da terra acontecia (e ainda acontece) à custa de inúmeros danos da floresta. E Allan percebeu que podia introduzir os princípios básicos da agricultura sustentável ao mesmo tem-po que formava as comunidades na utilização consciente dos recursos nativos da floresta para fazer habitações, peças decorativas de mobiliário, bijuteria e pequenas embarcações.

A fundamentar a sua tese diz-nos, cheio de convicção, que conhece “muito bem as madeiras locais devido ao tempo de formação em marcenaria. E prossegue: “como já estava cansado de tanto trabalho pensei numa reforma antecipada, procurei um lugar onde houvesse boas madeiras para fazer as minhas peças... eu tinha todas as competências, fiz arquitectura, marcenaria e sabia de gestão florestal sustentável”.

É assim que nasce a Mezimbite Forest Center que junta agricultura, reflorestação e produção de peças de madeira, num modelo de negócio que proporciona a geração de uma renda extra para a comunidade. O arquitecto acabou por ter dois apoios de peso para iniciar a sua obra, como nos confessa por entre as palavras em língua portuguesa com pronúncia do inglês, sempre com um sorriso que evoca histórias inesperadas. “Acabei por ter o pedido do Presidente Joaquim Chissano para ficar em Moçambique, ele ofereceu-me algumas condições. Mas, nas minhas viagens, acabei também por conhecer o presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, e também me convidou para ficar. E tudo isto na mesma semana. Pensei que seria um sinal divino! E em termos práticos, nas matas teria protecção”.

Após uma experiência no Niassa, já em 1994, Schwarz descobre um terreno no Dondo, província de Sofala. Começou a vender toros de madeira e investiu o lucro numa serração “porque podia ganhar mais vendendo a madeira tratada e serrada e reinvestir na criação de peças já com algum design”. Mas, voltando à agricultura que ainda hoje, no país, carece de desenvolvimento, Allan revela que procurou sempre incutir na comunidade local os princípios do reflorestamento porque, relembra, “as pessoas tinham por hábito devastar a floresta, enriquecer os solos com queimadas, por exemplo, mas o abate de madeiras nobres também era elevado. Mas aqui plantamos árvores nativas como a umbila e a chanfuta e também outras que são leguminosas e fixam nitrogénio e outros nutrientes necessários para que a terra se mantenha fértil. Isto é o princípio da agricultura sustentável”.

Negócio sustentável

Com este principio, a comunidade, que já produzia mudas para o reflorestamento das matas, já não teria de ser nómada e começava a ganhar um salário, pequeno, mas suficiente para garantir algum do sustento da família. Entre a madeira vendida em bruto e a tratada há uma grande diferença, explica. “Um metro cúbico de madeira, mais ou menos três árvores em toros, é vendido a 14 dólares. Mas se fizermos mobílias e outras peças, com estas madeiras, são mais de dois mil dólares para o mesmo metro cúbico. Esta é a diferença entre vender toros e comercializar a madeira trabalhada”. As contas feitas ajudam a perceber a importância da indústria de transfor-mação, ainda que em pequena escala, sendo este valor também um incentivo para que não se abatam árvores indiscriminadamente e se alimente a sua reposição.

Moçambique sustentável chega ao resto do mundo

A floresta está cheia de frutos que escondem sementes, vagens que concentram fibras macias, raízes que servem para quase infinitos aproveitamentos, árvores que chegaram ao fim da vida e tombam, inertes, e plantas que produzem óleos para culinária e para em-belezar a pele. Há também abelhas que deixam mel e cera. Com tanta matéria-prima é quase impossível avaliar a riqueza da cadeia de valor alimentada por um pequeno talhão de floresta. Por tudo isto, o Mezimbite Forest Center é o “chefe” de uma família de projectos, onde podemos encontrar mais de 20 sub-sectores, sendo aqui que nascem pulseiras e colares, autênticas jóias trabalhadas em madeira e marfim vegetal, este oriundo das vagens de uma árvore conhecida como samaúma, onde a fibra é utilizada para estofar almofadas e/ou colchões. Das suas sementes é possível gerar óleo alimentar.

Mas são os acessórios que embelezam homens e mulheres os produtos que mais destaque têm alcançado além-fronteiras. Porque são oriundos de uma produção sustentável, vêm de um país emergente e têm um design que os torna únicos.

Estas peças de arte viajam com frequência para a Europa e Estados Unidos e já passaram pela New York Fashion Week ou pelo Ethnic Fashion Week em Paris.

São peças raras e únicas, produzidas pelas mãos de experientes artesãos formados por Allan. “Ao longo dos anos foram formadas cerca de 5 000 pessoas. E só neste momento trabalham aqui cerca de 120” revela o mestre, orgulhoso.

Para além das pulseiras, há também peças decorativas para a casa e escritório, mobílias completas que podem ser encomendadas de acordo com a imaginação do mentor ou projectadas em conjunto. E há casas em madeira já com todo o recheio que podem servir para fornecer resorts ou quem queira uma casa de praia. Tudo isto pode ser expedido para qualquer parte de Moçambique, ou partir mundo fora para fazer as delícias de quem gosta de estar rodeado de produtos handmade de forma sustentável. Claro que as peças que dali saem não são para todas as bolsas, mas existem alternativas. “Fizemos uma linha para o mercado local com preços acessíveis para que professores, médicos, enfermeiros e outros profissionais as possam adquirir. Moçambique tem madeiras que estão a ficar cada vez mais raras devido ao abate desenfreado. Os preços das peças também aumentam e é por isso que as produzidas com madeiras de alta qualidade não se conseguem vender em Moçambique e têm de ir para exportação”.

Idai deixou marcas

Apesar de todo o crescimento, Allan diz que agora precisa de abrandar, dado que após a devastação provocada pela grande tempestade do ano passado, o trabalho foi muito esgotante: “depois de termos conseguido recuperar 80% do que foi perdido após o ciclone Idai e depois desta época das chuvas vamos renovar o que ainda falta e vou começar a pensar em descansar. Já tenho colabo-radores muito bons que me podem substituir e já comecei a transferir responsabilidades para os mestres que começaram como aprendizes. São eles agora os líderes dos projectos! Eu quero saber que morro, mas que o projecto continua. É este o objectivo também”, confidencia, olhando o horizonte com a certeza de trabalho realizado. Deste projecto que recupera os recursos florestais comunitários que dão trabalho e competências às gentes locais, já se formaram alguns mestres artesãos que hoje trabalham no estrangeiro (África do Sul e Itália).

Perguntar a Allan o que representa, para si, a floresta, torna imperativa uma resposta pronta embalada em voz de felicidade: “A floresta é a minha casa! Eu vivo dentro da floresta há muitos anos... Recordo-me que, uma vez no Niassa, houve por lá um ciclone e eu fiquei três meses na floresta, imagine! As ruas e estradas estavam cortadas e acabei por viver ali só com o que a floresta me dava e olhe que não emagreci um único grama. A floresta dá-nos tudo o que precisamos para viver e ser felizes”.

Resta acrescentar que este projecto é financeiramente sustentável, tendo, no início dos trabalhos, obtido apoios de pequenas ONG e alguns particulares. Criou raízes. E agora dá frutos.

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