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Elmano Madaíl
October 20, 2019

“MOÇAMBIQUE DEVIA SER PATRIMÓNIO MUNDIAL DO MOVIMENTO MODERNO”

A instituição sediada em Los Angeles, nos Estados Unidos da América, premiou com 160 mil euros o projecto apresentado pela Universidade do Minho (UMinho)

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Elmano Madaíl
Jornalista
Fotografia
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... de Portugal, que lidera uma equipa multidisciplinar com técnicos dos próprios CFM que são proprietários do edifício, e da Universidade Eduardo Mondlane (UEM).

A intervenção no singular prédio, se já era imprescindível volvido meio século do acto inaugural, após a destruição do ciclone Idai, que varreu as províncias da Beira e Sofala em Março passado, tornou-se mais urgente. Para desenvolver novas funções e devolver a dignidade a um dos maiores ícones do Movimento Modernista. Em Moçambique e no mundo inteiro.

Vários técnicos para problemas diversos

“A nossa intervenção tem várias vertentes: em termos do construído, além dos problemas devidos a 50 anos de uso – como as fissurações, o revestimento em mosaico de vidro, partido em muitas zonas, a maioria das ferragens dos quebra-luzes, que já não funciona, o sistema de iluminação embebido nas coberturas das plataformas estar apodrecido... – acrescem os danos do ciclone Idai, que ocorreu já depois da nossa candidatura, nomeadamente pela destruição de caixilharias e quebra-luzes da fachada sudoeste. Temos, portanto, uma série de problemas que é preciso avaliar para apresentar propostas”, explica o arquitecto Elisário Miranda, professor da Escola de Arquitectura da UMinho e um dos elementos da equipa financiada pelos dólares da Getty.

Para lá da resolução das patologias construtivas que o prédio apresenta, a equipa, que integra também um sociólogo, irá abordar a vertente utilitária da obra inaugurada em 1966: “Propomos estudar e avaliar a utilização actual do edifício e redinamizar os espaços, adequando-os às necessidades actuais e repensando o papel que a estação pode desempenhar nas dinâmicas sociais da cidade da Beira”, acrescenta Miranda.

Estação das utopias

Enquanto este não fica estabelecido pelo estudo ora em curso, o papel simbólico que a Estação Central da Beira desempenhou, durante a vigência do regime colonial em Moçambique e em prol do Estado Novo, ficou claramente definido pelas autoridades de então – ela foi, a seu tempo, a expressão de uma dupla utopia.

“O edifício é uma declaração política. O Porto da Beira e os Caminhos-de-Ferro da Beira são nacionalizados em 1949, numa operação a que as autoridades chamam de “resgate”, e se a estação é inaugurada a 1 de Outubro de 1966 é para comemorar dois eventos importantes para o regime: esse “resgate”, que ocorreu a 1 de Outubro; e, simultaneamente, os 40 anos da Revolução Nacional que deu origem ao Estado Novo (1926)”, explica o académico minhoto.

“A Estação Central da Beira é, no dizer dos governantes de então, um símbolo do progresso e da permanência de Portugal em África. Este edifício significava a utopia da arquitectura moderna (a qual, por si só, teria de ter a capacidade de mudar a sociedade), internacionalista e democrática, que é utilizada por outra utopia – a do Portugal pluricontinental, plurirracial e pluricultural alardeada pelo Estado Novo. Assim, a Estação Central da Beira é um edifício muito significativo”, garante Miranda.

Mas, mais do que a hermenêutica dos devaneios utópicos de outrora, interessa à Getty a concretude da arquitectura per si. E, nesse aspecto, a Estação Central da Beira merece todos os encómios. Ex-libris da cidade e término do sistema ferroviário que liga o porto da cidade ao hinterland africano, composta por três corpos distintos articulados entre si – átrio, bloco da administração e zona do cais – foi desenhada pelos arquitectos Francisco José de Castro, João Garizo do Carmo e Paulo de Melo Sampaio.

Foi a sua linguagem ortodoxamente filiada na arquitectura do Movimento Moderno internacional do pós-guerra (pilotis, quebra-luzes, arcos e abóbadas parabólicas e catalãs, grelhagens de ventilação, murais cerâmicos, entre outros) que a tornou elegível para figurar entre os dez edifícios marcantes do século XX, a nível mundial, que são agora apoiados pela Getty. Uma dezena de obras – onde figura também o Museu Nacional do Uganda – que irá beneficiar de 1,4 milhões de euros no âmbito da iniciativa “Keeping It Modern”, e que já contribuiu, em cinco anos, para planear e investigar a conservação de 64 edifícios modernistas em todo o mundo.

Quantidade e qualidade em Moçambique

Assim sendo, é possível que haja outros edifícios, em Moçambique, a merecer a atenção da Getty no futuro. Porque não faltam, em todo o território, obras de relevo, de altíssima qualidade, tanto no desenho como na construção, legadas pelo Movimento Modernista.

Abundância que se explica, segundo Miranda, pela conjugação de factores que tornaram a África lusófona no laboratório vivo de uma arquitectura cujo exercício, paradoxalmente, estava vedado na metrópole. “O regime do Estado Novo não permitia, em Portugal, esta arquitectura nos edifícios oficiais até meados da década de 1950. Naquela epoca, havia uma linguagem oficial que se expressa na escolha de alguns estilos arquitectónicos para os principais edifícios oficiais e religiosos: a arquitectura inspirada no neo-classicismo nazi alemão e fascista italiano, como na antiga agência do Banco Nacional Ultramarino, actual Banco de Moçambique, na cidade da Beira, em que tudo se destina a esmagar o indivíduo numa afirmação de poder; a mistura eclética de estilos originários da História da Arquitectura, como nas fisionomias neobarrocas do Banco de Angola, em Luanda, e da Catedral de Nossa Senhora de Fátima, em Nampula; ou ainda na sobreposição estilizada de formas da arquitectura popular portuguesa no chamado estilo Português Suave, como se convencionou chamar a esta invenção dos ideólogos do regime, tal como é patente na Villa Algarve, em Maputo”, enumera.

“Mas”, continua Elisário Miranda, “nas províncias ultramarinas, as necessidades eram outras. A seguir à II Guerra Mundial, temos um programa de desenvolvimento acelerado, de industrialização, de infra-estruturação onde se fomenta o crescimento das cidades já existentes. Surgem assim necessidades novas, havendo que executar tudo muito rapidamente e com os meios disponíveis”, historia o arquitecto. “E o que havia para isso era o betão, o ferro, o vidro, por permitirem uma construção mais rápida e mais barata do que os métodos anteriores, que implicavam, também, uma mão-de-obra especializada que não existia naquelas regiões”.

As inovações do Brasil

Especializados eram os técnicos que, partindo da metrópole, deveriam conceber os edifícios institucionais que dessem corpo ao plano desenvolvimentista do Governo autocrata de Oliveira Salazar. E esses tinham já ideias muito diferentes do estilo cultivado pelo Estado Novo:

“Houve muitos jovens arquitectos que foram para África, principalmente aqueles formados na escola do Porto, que era muito mais progressista do que a de Lisboa, e levaram com eles o ideário conceptual e formal do Movimento Moderno”, diz Miranda.

Um ideário que postulava a funcionalidade dos espaços e a pureza das linhas – ficou célebre a frase “less is more” (menos é mais) cunhada por Mies Van der Rohe, um dos nomes maiores do Modernismo, a par de Le Corbusier, em França, ou Frank Lloyd Wright nos EUA – mas que, internacionalizada, levantava questões de adaptação climática. Como fazer esta arquitectura de grandes planos de vidro em zonas tropicais? – interrogavam-se os mestres de então.

“Os brasileiros são os grandes adaptadores da adequação climática da Arquitectura Moderna às condições dos trópicos. E introduzem várias inovações, como os sombreadores da Estação Central da Beira, as grelhas de betão que permitiam a circulação do ar e davam leveza aos edifícios, as lâminas de vidro orientáveis, as coberturas duplas... Todas estas características vão influenciar uma arquitectura mundial e os arquitectos portugueses em particular”, refere o docente minhoto.

Essa influência explica-se, desde logo, pelo vínculo privilegiado da língua comum, mas também pela relevância e difusão que a arquitectura modernista brasileira, absolutamente revolucionária à época, alcançou graças à exposição que, então, decorreu no Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova Iorque, em 1943, chamada “Brazil Builds”.

“Para essa exposição foi enviado ao Brasil um fotógrafo para fazer o levantamento da arquitectura colonial (barroca) de origem portuguesa e, simultaneamente, documentar a arquitectura que se estava a desenvolver naquela época.

Preservar e acrescentar

O catálogo da exposição teve um grande impacto: todos os arquitectos em Portugal tinham o “Brazil Builds” nos gabinetes...”, diz Miranda. De modo que esses jovens arquitectos que acabaram por se espalhar pelas colónias portuguesas de África tinham tudo: o espaço, os materiais e todos os conhecimentos técnicos que também decorriam do conhecimento dessa publicação. Acrescentar conhecimento é também um dos objectivos da equipa liderada pelo professor catedrático da Escola de Engenharia da UMinho, Paulo Lourenço, e da qual constam, além de Elisário Miranda, Maria Manuel Oliveira (UMinho), Luís Lage (UEM), o engenheiro Fernan-do Ferreira e o arquitecto Edmundo Cândido (CFM).

Deverão compilar desenhos históricos, fotografias e histórias orais para complementar um dossier a partilhar com a África lusófona, visando elevar o nível e as práticas de conservação do património arquitectónico Modernista, bem como o conhecimento das ferramentas de última geração existentes neste âmbito.

E não falta trabalho, dada a profusão de exemplares relevantes no país. De tal modo extensa que Elisário Miranda não hesita em considerar que “Todo o Moçambique, e Maputo em particular, deveria ser considerado património mundial da arquitectura do Movimento Moderno”.

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