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Pedro Cativelos
November 22, 2018

Moçambique na "vanguarda" como centro mundial de produção de GNL

No mercado nacional de combustíveis desde 1957, a Galp Energia faz parte da história do sector energético no país e prepara-se agora para um dos maiores passos da sua história e, da de Moçambique

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Fotografia
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Jay Garrido

de acordo com a Agência Internacional da Energia (IEA), enquanto fonte energética, o gás natural representará pelo menos um quarto da demanda mundial até 2040, um crescimento de mais de 40% num período de 25 anos.  E cerca de 80% desse aumento, advirá do incremento na procura nos mercados chinês e indiano, (entre outros países asiáticos), sendo que, pela dimensão das suas reservas, Moçambique desempenhará um importante papel em toda esta nova dinâmica.

Nesse sentido, torna-se essencial olhar aos players desse mercado, como a ENI, a Exxon Mobil, ou a Anadarko, mas também a Kogas, a ENH, ou a Galp Energia, claro.

Ao longo dos anos foram muitos os projectos em que a multinacional portuguesa foi investindo mas, quando em 2007 iniciou actividade no segmento de exploração e produção na Bacia do Rovuma em Cabo Delgado, os horizontes tornaram-se mais amplos e Moçambique passou, de forma ainda mais vincada, a fazer parte das prioridades da empresa (que já actua no país desde meados do século passado).

Em Julho, o consórcio que inclui a Galp Energia, avançou com o plano de desenvolvimento do projecto para a produção e venda de gás natural (inclui a proposta de construção de instalações onshore, que compreenderão duas unidades de liquefacção, com capacidade para produzir 7,6 milhões de toneladas por ano) proveniente das reservas de Mamba, na denominada Área 4. Mais adiantado está já o processo de Coral Sul (unidade flutuante de produção de GNL que já começou a ser construída na Coreia do Sul), que já tem o FID (decisão final de investimento) de 7 mil milhões de dólares aprovado desde o ano passado.

Com uma forte expansão a nível global, a Galp desenvolve operações de exploração, produção, refinação e distribuição em 11 países de quatro continentes e, em Moçambique, será a única a actuar em duas das áreas da cadeia de valor do gás natural up e downstream. Em entrevista à E&M Paulo Mendonça, Country Manager da Galp Energia Moçambique, revela a posição da petrolífera na conjuntura actual e fala sobre as perspectivas do mercado de GNL, antecipando ainda, um pouco do que aí virá nos próximos anos.

Que presença tem hoje a Galp em Moçambique, e como foi ela evoluindo ao longo dos anos?

Os projectos em que estamos a investir garantem a continuidade no sentido de construir um futuro comum com o país por muitos anos. A Galp é, também, um caso singular no sector energético em Moçambique uma vez que é a única empresa que está presente, em simultâneo, nos negócios da Distribuição - Downstream e da Exploração e Produção - Upstream.

Carlos Nuno Gomes da Silva, CEO da Galp Energia dizia recentemente que “esta será a década do gás”. Neste sentido que importância tem Moçambique na estratégia global da empresa?

Esta é de facto a década do gás e Moçambique está na vanguarda desta revolução energética como novo centro mundial de produção de GNL. Os mercados procuram cada vez mais soluções energéticas limpas, o que pode levar a uma procura de gás no mercado internacional muito superior ao previsto. A posição geográfica e um time-to-market favorável que o país oferece proporcionarão alta competitividade, em comparação com outros projetos de GNL no resto do mundo. O gás natural é uma das grandes apostas estratégicas da Galp para as próximas duas décadas e representará um contributo significativo na transição energética e na descarbonização da economia global. O nosso projecto para o Rovuma terá grande relevo na estratégia de crescimento da empresa e será determinante para o aumento do peso do gás no nosso portefólio.

Depois de anos de avanços e recuos, em que ponto está hoje a operação?

A Galp é um dos principais investidores no país e integra um consórcio para a exploração de gás natural em Cabo Delgado. Este investimento é realizado em parceria com a Mozambique Rovuma Venture S.p.A. – uma joint venture entre a ExxonMobil, Eni e CNPC, a KOGAS e a Empresa Nacional de Hidrocarbonetos - ENH. A apresentação ao Governo do Plano de Desenvolvimento para a primeira fase do projecto onshore Rovuma GNL1, em Julho de 2018, reflecte o compromisso do consórcio em continuar a desenvolver os recursos de elevada qualidade descobertos na Área 4. Refira-se que, em Junho de 2017, foi já tomada a decisão final de investimento – FID, referente ao projecto FLNG Coral Sul, estando a primeira produção de GNL prevista para 2022. O consórcio de que a Galp faz parte na Área 4 está a trabalhar afincadamente para concretizar a FID do projecto Rovuma GNL1 em 2019, permitindo assim que a produção de GNL comece em 2024. Estamos, igualmente, a avançar na vertente comercial, de forma a garantir as melhores condições de venda do gás.

A situação de insegurança que se vive em Cabo Delgado pode, de alguma forma, fazer atrasar o processo?

Apesar dos acontecimentos que se têm verificado continuamos empenhados na prossecução dos projectos e temos confiança que vão ser encontradas soluções no terreno que permitam prosseguir os trabalhos actualmente em curso.

Bem como o início dos trabalhos de construção das fábricas de liquefação em Palma e Afungi. Este é um tema que temos vindo a acompanhar com muita atenção juntamente com os operadores, os nossos parceiros de consórcio e as autoridades moçambicanas, com as quais mantemos um diálogo permanente e muito próximo.

Esperamos que a situação de tensão

se atenue quando os benefícios económicos do projecto se forem tornando efectivamente mais palpáveis.

Como é que a empresa observa os seus parceiros de consórcio, duas gigantes mundiais como a Exxon, a CNPC ou a ENI e como tem sido a relação com os outros players?

Os projectos de GNL do Rovuma são de uma enorme complexidade com grandes exigências técnicas, financeiras e comerciais. Tenho que destacar o alinhamento claro que existe entre todos os parceiros nas questões fundamentais e estratégicas do projecto. O sucesso de um projecto desta natureza depende muito da qualidade e da robustez das parcerias formadas para a exploração dos recursos. A forte robustez da joint venture da Área 4 é um dos factores que garantem, à partida, o sucesso de tudo isto. Ao todo, são seis empresas com experiências diferentes e complementares fortemente empenhadas na concretização do projecto. O modelo de Dual Operatorship em que a ENI assume o papel de operadora do Upstream e da unidade offshore de FLNG do Projecto Coral, e a ExxonMobil o papel de Operadora do Midstream do projecto RLNG1 em Afungi, permitem optimizar a excelência de conhecimentos de cada empresa em prol do sucesso do desenvolvimento dos projectos da Área 4. O relacionamento entre os

parceiros do consórcio tem-se pautado por uma grande cumplicidade institucional e tem-se alicerçado no aproveitamento das valências e experiência de cada um, o que tem permitido os sucessos já obtidos, nomeadamente a Decisão Final de Investimento (FID) do projecto Coral em Junho de 2017, e a entrega ao Governo do Plano de Desenvolvimento (PoD) do projecto RLMG1, em Afungi, em Julho de 2018.

A GALP opera também em outras áreas desta cadeia de valor, e é visível o crescimento da presença de postos de abastecimento da empresa no país. É para manter este crescimento?

Na sequência de um plano de investimento em curso, alargámos recentemente a nossa rede de postos de abastecimento a todas as províncias do território. Actualmente temos 57 postos de abastecimento e iremos crescer até aos 60, até ao final de 2018, sendo que prevemos, em 2020, chegar aos 70 ou até mais. O plano de expansão da empresa passa ainda pela construção de duas novas bases logísticas para recepção, armazenagem e expedição de combustíveis líquidos e de GPL nas cidades da Matola e da Beira. Passaremos, desta forma, a contar com quatro bases logísticas no país.

Qual é hoje, o grau de investimento da Galp energia em Moçambique?

O investimento total da Galp em Moçambique chegou aos 450 milhões de dólares nos últimos cinco anos, dos quais mais de 400 milhões foram direccionados para os projetos da Área 4 e o restante na expansão da rede de postos de abastecimento e logística. Os projectos que a empresa tem neste momento em curso no país são de uma envergadura difícil de imaginar, tanto no Coral Sul como naquele que esperamos avançar, em breve, o grande projecto onshore RLNG1 em Afungi, que será quatro vezes maior em termos de produção.

Os projectos em que estamos envolvidos fazem parte dos principais investimentos directos estrangeiros em Moçambique, criando milhares de empregos directos e indirectos, sendo por isso um motor de crescimento e de desenvolvimento. Acreditamos que estes investimentos vão transformar a economia e multiplicar as oportunidades de desenvolvimento para todos os que aqui vivem.

Com a dimensão das operações de exploração de recursos, de que forma se pode minorar o impacto junto das populações locais?

Desde sempre, temos procurado contribuir para o desenvolvimento social e para que os moçambicanos estejam em condições de beneficiar dos investimentos que a empresa faz em Moçambique. A Galp tem um compromisso com o desenvolvimento sustentável de Moçambique e quer contribuir para uma melhoria efectiva das condições de vida dos moçambicanos, quer através da criação de riqueza para o país, por via da criação de postos de trabalho, quer através de uma abordagem muito diversificada que vai da formação e capacitação profissional até a actividades de responsabilidade social. Temos feito um trabalho estruturante no apoio a empresas nacionais através de programas de intercâmbio e estágios profissionais de colaboradores, tal como acontece com a ENH. Temos tido, desde 2013, quadros da estatal a trabalhar, inicialmente, na área de exploração e produção de petróleo, depois em quase todas as áreas corporativas, partilhando a nossa experiência e know-how em cada uma das áreas. Partilhamos as nossas melhores práticas no sentido de contribuir para capacitar o país para enfrentar, nas melhores condições, as grandes mudanças do futuro. Estamos também a promover activamente projectos sociais e com impacto na comunidade tal como a instalação de painéis solares em quatro localidades nas províncias de Sofala, Manica e Cabo Delgado, para dotar as populações de acesso a energia limpa, através de uma parceria com a FUNAE. A educação, a promoção do talento e a meritocracia são causas que abraçamos e tornámos estratégicas. Nessa medida, estabelecemos uma parceria com a Girl MOVE Academy, no sentido de dar mais oportunidades às mulheres moçambicanas, enquanto principais agentes de desenvolvimento do seu país, através da liderança pelo serviço. Em Outubro, duas jovens moçambicanas fizeram uma formação nos escritórios de Lisboa da Galp através de estágios nas áreas de Marketing e Comunicação e Compliance. A Galp tem o compromisso em adicionar valor ao país.

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