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Redacção
November 27, 2019

OLHAR POR MOÇAMBIQUE

A vontade de ajudar a população da província de Nampula juntou uma ONG, uma multinacional e uma universidade moçambicana com o objectivo de fazer um rastreio visual e oferecer óculos a quem...

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A vontade de ajudar a população da província de Nampula juntou uma ONG, uma multinacional e uma universidade moçambicana com o objectivo de fazer um rastreio visual e oferecer óculos a quem mais precisa

a helpo é uma ONG para o Desenvolvimento, em Moçambique desde 2008, com base de actuação nas províncias de Cabo Delgado, Niassa, Nampula e Manica onde, em conjunto com outras instituições locais, procura minimizar a exclusão das populações mais vulneráveis.

Direccionada para a educação e nutrição materno-infantil, tem tido um papel fundamental na inclusão das comunidades locais através da construção de escolas, centros de nutrição, sistemas de aproveitamento de águas pluviais, entre outros aspectos de igual valor.

E foi ao caminhar pela terra vermelha do norte do país que Carlos Almeida, coordenador de projectos da Helpo em Moçambique, verificou que ali havia um incontável número de crianças que não viam com nitidez a cor do chão e as letras dos livros da escola. É do conhecimento público que Moçambique ainda não conseguiu formar optometristas em número suficiente para atender um país tão vasto e com tantos problemas.

Não estamos a falar de médicos que operam e tratam doenças ocularesm, mas de especialistas capazes de medir o grau de visão e através de um par de óculos com lentes apropriadas, colocar os olhos a verem tudo à volta tal como é. “A Grandvision Multiopticas já trabalhava connosco em Portugal e quando trocámos impressões acerca das dificuldades que existem em Moçambique para as pes-soas conseguirem comprar óculos que minimizem os seus problemas, a resposta foi ‘nós vamos ajudar’”, relata Carlos Almeida à E&M. Mas para que a acção fosse mais abrangente era preciso envolver os alunos finalistas do curso de optometria ministrado na Universidade de Lúrio.

Tudo começa na vontade

Também aqui a resposta foi positiva, com a vice-reitora Sonia Maciel a apoiar a iniciativa. Estava assim criado o projecto piloto baptizado a partir de um conceito simbólico e cheio de sentido: “Olhar por Moçambique”.

Antes de partir, a empresa portuguesa Multiopticas deu início a uma campanha na qual os clientes poderiam doar os seus óculos que já estavam desajustados aos seus olhos, para que fossem depois restaurados e levados em conjunto com mais lentes e equipamento de rastreio visual para Moçambique. O objectivo da acção passava por assinalar o Dia Mundial da Visão onde ela é um bem escasso. E Moçambique foi o destino escolhido, não só pela proximidade da língua como também pelas dificuldades que as populações nas zonas recônditas enfrentam a este respeito.

E foi dessa forma que, com o apoio das transportadoras aéreas TAP e LAM, que ofereceram isenção de taxa na bagagem extra, uma equipa de seis pessoas partiu então para Maputo, onde fez escala para chegar a Nampula, preparada para fazer 600 rastreios de optometria a uma população previamente rastreada pelos técnicos da Helpo. À sua espera estavam 13 alunos finalistas do curso de optometria e um professor da Universidade de Lúrio.

No caminho da terra vermelha

Os locais escolhidos para este projecto piloto foram a Ilha e Marrere, ambos em Nampula, e os 600 rastreios iniciais acabaram por aumentar para os mil. Durante11 dias, passaram pelas mãos dos optometristas profissionais e estudantes finalistas, crianças, jovens, adultos, militares, polícias e até a ministra da Saúde, Nazira Abdula, que estando nas redondezas, foi fazer um rastreio e apoiar politicamente a iniciativa.

Mas a missão não era só dar qualidade de vida à população. Havia também a vontade de oferecer um estágio a dois alunos da universidade que se destacassem no terreno, ao mesmo tempo que todo o equipamento levado de Portugal seria doado, para com-plemento técnico ao curso de optometria.

Ana Portugal, que na GrandVision Portugal, grupo ao qual a MultiOpticas pertence, assume o departamento de Responsabilidade Socia,l refere que “o valor em óculos, armações e lentes foi cerca de 13 mil euros ao que se juntaram mais 20 mil em equipamento doado” para acrescentar que “este valor não é nada quando comparado com o bem que foi feito, especialmente em jovens que tinham perda de visão já muito avançada e alguns nem sabiam o quão grave era”.

Carlos Almeida reforça essa opinião, falando de pessoas que foram encontradas com uma falta de visão já num nível bastante avançado: “após os primeiros rastreios percebemos que havia quem precisava de dez dioptrias, o que numa linguagem mais acessível quer dizer que estas pessoas já estavam num nível de miopia alta e não viam praticamente nada.”

Esta doença ocular não tem cura, sendo o uso diário de óculos a única forma de conseguir um controlo efectivo já que a operação não é, como se pode imaginar, uma solução ao alcance das populações com menores rendimentos.

Ana Portugal salienta que este projecto foi muito especial tanto para a empresa como para si própria, revelando que se sentiu muito próxima das dificuldades que encontrou junto das comunidades da Ilha e de Marrere, até porque já sofreu de miopia, recorda.

“Este foi o nosso primeiro projecto além-fronteiras e tenho muita vontade de voltar, talvez com mais tempo, para que possamos fazer um pouco o balanço e perceber o retorno de toda esta acção, até porque deixámos algumas populações por onde passámos que não conseguimos atender, com a promessa de que tentaríamos voltar.” As crianças foram o alvo principal deste programa, por es-tarem ainda em idade de correcção mas, não sendo o objectivo principal, tornou-se impossível ignorar os adultos que vieram ter connosco”.

Óculos com histórias

Claro que, numa acção como esta, há sempre imprevistos: “Na Ilha de Moçambique havia pessoas muito cépticas com a iniciativa porque, anteriormente, houve uma organização que entregou um saco de óculos usados e velhos aos padres, que os distribuíram por quem dissesse que via mal, isto sem qualquer rastreio. E assim se entregam 7 800 óculos sem qualquer preocupação”, lamenta Carlos Almeida.

Ana Portugal prefere, por sua vez, atribuir um reconhecimento à Universidade de Lúrio: “Verificámos que os alunos do último ano do curso de optometria estavam muito bem preparados apesar de, naturalmente, mais em termos teóricos, devido à falta de equipa-mento. Mas agora creio que com o equipamento que doámos a Universidade vai conseguir melhores resultados.”

Desta troca de experiências resultou um prémio que foi oferecido aos dois alunos finalistas que mais se destacaram na operação no terreno. “O Rafael e a Clarisse vão chegar a Portugal no próximo mês de Janeiro”, salienta Ana Portugal acrescentando que “não é só um estágio. Vamos até às universidades portuguesas com curso de Optometria para que consigam fazer as equivalências e assim, se entenderem, ficarem a trabalhar connosco por uns tempos e depois levar essa experiência para Moçambique”.

Os olhos de Moçambique

Em 2014, Moçambique contava com cerca de 24 oftalmologistas, 16 dos quais estrangeiros, para uma população que ultrapassava os 24 milhões.

O que ilustra que, não só continua a existir uma grande falta de médicos e técnicos especialistas da visão, como os recursos disponíveis pelo Governo não são suficientes para cobrir os custos de atendimento médico ocular. Isto leva a que sejam as ONG e parceiros de desenvolvimento a terem de preencher esta lacuna. Também não existe um seguro de saúde no país, que cubra este tipo de despesas oculares. Os programas que correm pelas escolas para realizar rastreios são, na sua maioria, efectuados através de ONG’s e outros dependem de fundos internacionais. O acesso a óculos é muito limitado e se nos afastarmos da cidade de Maputo é ainda mais raro encontrarmos alguém com óculos devido ao elevado custo para o nível de rendimentos da esmagadora maioria da população.

Um dilema de saúde pública que é acentuado pelo sol e poeiras das estradas, que provocam graves danos oculares em crianças e adultos. Mas nem tudo é menos bom: o país já conseguiu graduar diferentes profissionais de saúde ocular como oftalmologistas, optometristas, técnicos de oftalmologia, ortoptistas e ópticos. É no Hospital Central de Maputo que são formados os oftalmologistas enquanto os optometristas são formados na Universidade de Lúrio à razão de 20 por ano. Este ano foram contabilizados 236 pro-fissionais oftálmicos, sendo 74,2% técnicos de oftalmologia, o que resulta em cerca de seis por um milhão de habitantes. Númertos ainda longe dos recomendados pela Organização Mundial de Saúde para África, que apontam o mínimo de dez para um milhão de pessoas.

E, não podemos esquecer que em Moçambique moram olhos que sorriem a todos os que por aqui passam. E que é preciso mantê-los sãos. Até para que vejam um futuro melhor.

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