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Pedro Cativelos
January 29, 2020

PIB MUNDIAL ESTÁ EM RECESSÃO MAS ÁFRICA É UM OÁSIS DE CRESCIMENTO

‍Enquanto uma já bastante esperada recessão global ganha força, a maioria das economias africanas não se mostra afectada devido à grande diversidade económica em algumas regiões. Moçambique incluído

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A constatação surge plasmada no último relatório do Institute of Chartered na Inglaterra e no País de Gales (ICAEW), “Economic Update: Africa Q4 2019” a que a E&M teve acesso e em que o órgão de contabilidade profissional fornece previsões de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para várias regiões do globo, com especial atenção na zona da África Oriental.

Cresimento

Ao nível mundial, segundo o último relatório, e de acordo com as estimativas apresentadas, esta região de África experimentou o crescimento real mais rápido do PIB, de 6,3% em 2019, e a previsão aponta mesmo para que este aumento acelere nos próximos dois anos. Moçambique é, de resto, um bom exemplo desta realidade com níveis de crescimento económico expectáveis para os próximos dois anos a variar entre os 3,5% (em 2020) e os 5,5% (em 2021), de acordo com as várias entidades que fazem a previsão, como o Banco Mundial ou o FMI.

Logo a seguir surge a zona francófona, a segunda região que mais cresce em África, e para a qual as previsões apontam para um crescimento do PIB a rondar os 4,9% no próximo ano.

O relatório da ICAEW, produzido em parceria com a previsão da Oxford Economics, aponta ainda um outro dado curioso: África irá, invevitavelmente, tornar-se o lar de metade das dez economias de crescimento mais rápido do planeta nos próximos cinco anos. O que só pode ser um bom sinal.

Mundo abranda, África acelera. Será?

Se o relatório conclui que mesmo apesar de haver um cenário sombrio criado pelo crescimento lento nas ‘economias locomotiva’ do mundo, como o são os Estados Unidos, a China e a Europa (zona Euro), o continente africano passará a ser o lugar de muitas e boas histórias económicas positivas. Ainda que as duas maiores economias do continente, Nigéria e África do Sul, continuem a lutar diariamente com cenários económicos complexos e perturbadores, nota-se a ascensão de novos players económicos como o Quénia ou a Etiópia, impulsionada pelo Investimento Directo Estrangeiro (IDE) essencial para melhorar a situação externa do país, e com um plano claro para atrair investidores através da privatização parcial da Ethio Telecom paraestatal, da concessão de duas outras licenças de telecomunicações móveis (programadas para Março de 2020). Estando ainda prestes abrir uma bolsa doméstica em 2020, existem, hoje, grandes empresas internacionais de telecomunicações como a MTN, a Vodacom, a Orange e a vietnamita Viettel, que estão a entrar no lucrativo mercado móvel, sempre um barómetro do pulso económico de qualquer sociedade, e um indicador relevante que nos diz algo sobre o desenvolvimento social de um qualquer mercado.

Falando durante o lançamento do último relatório, o director regional da ICAEW para o Médio Oriente, Ásia e África, Michael Armstrong, observa que “a força das economias diversificadas no Leste do continente desempenha um papel importante, amortecendo os choques” de uma, há algum tempo esperada, desaceleração global do crescimento económico.

“O desempenho assinalável do crescimento de África num contexto de recuos económicos das grandes economias mundiais é o palco ideal para continuar a atrair o interesse dos grandes investidores de todo o mundo. Esse interesse mantém as economias africanas numa trajectória de crescimento com a entrada de dinheiro novo nas respectivas economias, o que só pode ser uma coisa boa quando analisada em comparação com as perspectivas globais, que mostram um enfraquecimento do crescimento do PIB mundial”, diz Armstrong.

“Espera-se, desta forma, que o crescimento económico da África Oriental continue robusto, diminuindo ligeiramente de 6,3% este ano para 6,1% em 2020.” O porquê explica-o pelo facto de “a maioria das economias da região continuar a beneficiar-se dos preços mais baixos das commodities internacionais, enquanto o crescimento do consumo predominante na região isola, de certa forma, essas economias da desaceleração do comércio global”, releva.

O crescimento económico na zona franca da SADC também deve, segundo o estudo, permanecer forte, passando de 4,7% em 2019 para 4,9% no próximo ano, algo que é fundamentado pela “exploração efectiva dos recursos minerais e agrícolas da Costa do Marfim, acompanhada por um ambicioso plano de desenvolvimento do Governo, enquanto a economia relativamente diversificada do Senegal é apoiada pela estratégia de desenvolvimento do Plan Senegal Emergent”, assinala Armstrong.

Olhando mais a Norte no continente, o desempenho económico permanece volátil devido à instabilidade na Líbia, com o crescimento regional a subir apenas 2,8% este ano para 4,5% em 2020. Já no Egipto, que é, desde há anos, a âncora económica da região, os ajustes de políticas favoráveis à economia estão a traduzir-se em melhores fundamentos macroeconómicos com resultados positivos nas perspectivas de crescimento.

Locomotivas desaceleram

Foram, durante anos, as economias propulsoras do crescimento no continente, mas a baixa nos preços do petróleo com reflexo directo na estabilidade cambial (nos casos de Angola e Nigéria) e os problemas sociais (África do Sul) trouxeram-nas à dura realidade da crise. E com impactos que vão além das suas próprias economias. Assim, e embora se vá notar um aumento no próximo ano, o PIB de várias regiões do continente vai permanecer relativamente moderado, em grande parte devido, precisamente fracos desempenhos na Nigéria, Angola e África do Sul. Espera-se que o crescimento na África Ocidental e Central aumente de 3,4% em 2019 para 3,7% em 2020, em grande parte retido por um desempenho económico moderado da Nigéria devido a algumas decisões políticas erráticas e ineficazes.

Na África Austral, espera-se um crescimento de 2,2% em 2020, em comparação com uma expansão de 1,3% em 2019, algo que se explica por uma “estagnação” da economia sul-africana, também devido à incerteza política e às restrições de energia eléctrica que tiveram um impacto negativo na indústria e dissuadiram os investimentos em geral.

Uma nova época de liberalização?

O desempenho do crescimento da África continua a atrair o interesse dos investidores, em larga medida sob a forma de pedidos para privatizar algumas das numerosas empresas estatais do continente, não apenas para beneficiar investidores privados, mas também pa-ra melhorar o desempenho dessas instituições em benefício dos países para os quais se destinam servir. Se, na época da independência, havia uma predisposição ideológica para um papel central do Governo no alívio da pobreza, nas décadas seguintes as privatizações proliferaram por todo o continente. A Costa do Marfim foi uma das primeiras a propor privatizações na década de 1960. Mas na década de 1990, essa tendência disseminou-se, muito devido à pressão do FMI e do Banco Mundial.

Até a África do Sul, a nação mais industrializada do continente, continua sobrecarregada com uma miscelânea de empresas estatais de baixo desempenho em vários sectores, sendo a mais conhecida a concessionária de energia Eskom, com os problemas conhecidos de todos. Em Moçambique, a tendência deverá seguir a do continente, havendo espaço para que os privados comecem a entrar em muitas das estatais, aliviando o seu peso nas contas do Estado e gerando receita e competitividade económica, um tema “fulcral” quando se pensa em desenvolvimento económico a médio e longo prazo.

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