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Redacção
October 29, 2019

‘POUCA-TERRA’ NA GRANDE VIAGEM PELA TERRA INFINITA

A Rovos Rail é uma empresa sul-africana que começou a operar caminhos-de-ferro quando o empresário e fundador Rohan Vos, apaixonado por comboios...

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Um dia decidiu comprar, em leilão, carruagens antigas para restauro.

Tudo teria de ser rigoroso e mantendo o estilo de época, para que o esplendor da magia africana viajasse de comboio pela savana e floresta tropical. Em pouco tempo o hobby passou a negócio. Em 1989 é fundada a empresa e um comboio com quatro pessoas a bordo realiza a primeira viagem de luxo de Pretória à província de Transvaal que nos dias de hoje é conhecida por Gauteng. Mas, para que tudo fosse tal como as narrações dos livros ou as imagens que perduram nos filmes de Hollywood, a antiga estação de Capital Park, na capital administrativa da África do Sul, teve de ser restaurada para que não faltasse o som antigo anunciando a partida e a chegada dos comboios. Agora, só a ausência do vapor da locomotiva nos diz que estamos no século XXI.

A bordo dos comboios de Rohan Vos vive-se o ambiente glamoroso dos tempos passados, onde os passageiros se vestem de gala para jantar e usufruem, numa carruagem aberta, de toda a paisagem e vida selvagem que os rodeia.

Cada viagem é uma experiência única, havendo paragens em localidades antigas e remotas, lá muito longe onde perdemos de vista o continente. Ao mesmo tempo que se fazem safaris nas reservas naturais, visita-se as cataratas Victoria Falls, com direito a passagem aérea e pernoita-se em resorts de luxo, caso se opte por programas mais extensos. Tudo isto enquanto o comboio fica, um dia ou dois, orgulhosamente parado, esperando que os passageiros de várias nacionalidades ali regressem.

Assim foi montada um indústria de turismo de luxo que pode ser uma alavanca para a maioria dos países africanos, como explica à E&M a consultora especialista no sector Rebeca Barreiros: “isto é turismo de luxo de nível internacional, sendo um ponto de partida para que se comece a olhar para alguns destes países de outra maneira. Por exemplo, atravessar países com alguns problemas de se-gurança ou de saúde de comboio desmistifica tudo, porque é possível fazer o percurso com toda a segurança e conforto”. Depois, continua, “muitos deste países precisam das divisas internacionais e a paragem do comboio nas aldeias e vilas faz com que haja compra de produtos locais e interacção com as comunidades o que resulta num saudável ambiente de partilha cultural”, explica.

Moçambique na rota

Voltando ao princípio, três décadas depois da primeira carruagem licitada, o sonho de Rohan Vos cresceu e conquistou uma proeza jamais pensada: uniu por caminho-de-ferro o Atlântico ao Índico e a África do Leste ao Oeste. O protagonista da viagem é o comboio Pride of Africa que realizou, pela primeira vez, esta viagem única no mundo. Partindo de Cape Town, na África do Sul, seguiu para Botsuana, Zimbabué, Zâmbia e Tanzânia. Em Dar-Es-Salaam voltou pela Zâmbia, República Democrática do Congo e por fim Angola. Foram sete semanas onde turistas de várias nacionalidades viajaram entre o luxo e experiências de vida que jamais vão esquecer. Elefantes, girafas e hipopótamos, em paisagens que viviam no imaginário de cada um, passavam ali mesmo na janela, para serem fotografados e capturados em filmes de memória que o tempo não apaga.

Esta viagem começou a ser programada em 2015 e depois de muitas vistorias pelos vários carris, onde largos quilómetros e também algumas pontes tiveram de sofrer reparações, estava tudo pronto para que, em Julho de 2019, a viagem tivesse início. Nada foi deixado ao acaso em termos de segurança e a facilidade do pedido de vistos online também ajudou a concretizar a jornada.

Durante sete semanas, a equipa da Rovos Rail ‘mimou os passageiros com refeições gourmet e os melhores vinhos sul-africanos. Esta viagem que podia ser dividida em dois percursos, com preços que variam de acordo com a categoria da cabine escolhida, foi um sonho de vida realizado para os amantes de África. Pelo caminho, houve tempo para safaris e passeios de barco pelos rios em várias reservas naturais, uma visita aérea (de avioneta) às Victoria Falls e passagem por aldeias e vilas africanas. A viagem idealizada e criada por Rohan Vos colocou África no mundo pelos melhores motivos, de tal forma que os percursos para 2020 e 2021 já estão vendidos a operadores de outros continentes.

Mas Moçambique pode fazer parte dos planos do Pride of Africa e receber dezenas de turistas, com uma possível paragem na Beira, como nos revelou Rebeca Barreiros. “A empresa detentora do comboio falou, de facto, na possibilidade do Pride of Africa poder passar por Moçambique. Acredito que é algo que está a ser estudado. Caso venha a acontecer poderá ter uma paragem no terminal da Beira mas, antes de tudo, há que levar em consideração a viabilidade da linha férrea”.

Para cruzar Angola, do Moxico a Benguela, houve cerca de quatros anos de negociações e melhorias nas infra-estruturas. No que diz respeito a Moçambique esta pode ser uma oportunidade para não desperdiçar, já que muito perto da Beira está o Parque Nacional da Gorongosa, o mais visitado e bem estruturado do país. Vasco Galante, do departamento de comunicação do Parque, confessa que “gostaria muito” de ver os turistas do comboio de luxo a visitarem o local: “nós temos possibilidade de fazer o transfer terrestre ou de avião, e tanto para o país como para nós seria muito prestigiante acolhê-los. Temos condições para hospedar até 100 pessoas que podem, ao mesmo tempo, fazer um safari e visitar alguns trabalhos de intervenção social que temos realizado com a comunidade”.

Moçambique não é, de resto, desconhecido para os turistas que viajam em comboios de luxo. O percurso Southern Cross, realizado pela Shongololo Express, já oferece, actualmente, três possíveis viagens pela África Austral. São até 15 dias de passeio por África do Sul, Namíbia, Suazilândia, Zimbabué e Moçambique, com várias excursões e safaris incluídos, onde também se pode jogar uma partida de golfe.

O comboio tem capacidade para 72 pessoas acomodadas em cabines singles ou de casal. As carruagens lembram os anos vinte do século passado, com painéis de madeira que nos devolvem a África que vive um pouco em todos nós.

Uma viagem de vida

Tal como Rohan Vos programou a sua vida à volta dos comboios, a viagem no Pride of Africa é única. Este é considerado o comboio mais luxuoso do mundo. E o preço faz jus à sua fama: cerca de 25 mil dólares.

A partir daqui a aventura começa e, mesmo para quem não nasceu em África, passa a pertencer-lhe, levando dentro de si um continente de gente verdadeira, onde passeiam animais selvagens entre árvores seculares, ou em savanas que cheiram a terra doce, onde o sol se apaga no horizonte vestindo o céu de vermelho intenso.

Antes desta viagem de sonho, o mentor do projecto Rohan Vos conta aos passageiros um pouco da sua história, indissociável dos comboios cheios de glamour que circulam em África, e faz uma breve explicação sobre os países que vão ser visitados, enquanto experientes bagageiros colocam as malas dos turistas nas cabines de cada um.

E a aventura começa. Enquanto circula, o Pride of Africa deixa no ar um som nostálgico que, a par com a deslumbrante paisagem que começa a revelar-se, vai arquitectando sorrisos de espanto. A bordo, todas as refeições são confeccionadas por experientes chefs, e para que não falte nada, a escolha de vinhos é sempre acertada harmonizando o paladar.

As suites são equipadas com todo o conforto e até a banheira reporta a épocas passadas. Com subtileza e acompanhado por aves curiosas, o comboio aventura-se pelo carril e África revela todo o seu esplendor.

As paragens ao longo dos países são muitas e incluem deslocações a reservas e parques naturais e, quando a distancia permite, estadias em resorts de luxo. Mas também passa por aldeias onde os turistas fazem compras e retribuem os sorrisos das gentes curiosas que os vão receber. Pelo caminho há manadas de elefantes que parecem posar com as suas crias que rebolam na areia da savana.

Ao longe avistam-se girafas e muitos outros animais em estado selvagem. Todos os dias um guia transmite aos passageiros, através de um sistema multilingue, o destino da próxima aventura, numa espécie de jogo onde todos querem participar. E Moçambique, que já colocou o seu nome no turismo mundial de luxo, através de locais como as ilhas Medjumbe ou Quilalea, pode, em poucos anos, fazer parte deste Pride of Africa.

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