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Redacção
January 2, 2020

QUEM SÃO E O QUE PENSAM OS JOVENS LÍDERES ANGOLANOS

Têm conhecimento e força, mas falta-lhes experiência e paciência. E o que trazem em vigor, falta-lhes em oportunidades.

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Este é o drama dos jovens líderes angolanos que defendem uma mudança de mentalidades no país

O investimentonas jovens lideranças multiplica-se por toda a África, o que demonstra uma forte crença naqueles que virão a liderar o continente e cujas escolhas serão fundamentais para um melhor futuro da região. É o que defende Rita Arnaut, consultora da Jason Angola, aludindo aos dados do Banco Mundial segundo os quais 70% da população da África Subsariana tem menos de 30 anos. Para assegurar o futuro do continente, reforçou, a receita está “na formação das jovens lideranças”. Segundo os entrevistados da E&M, tem-se notado cada vez mais a ascensão de jovens para cargos de alta responsabilidade.

Mas lamentam que ainda haja pouco investimento no capital humano, bem como pouca valorização de quadros nacionais competentes, sobretudo dos mais jovens. Para a consultora da Jason Angola – empresa que lançou este ano o Talent Festival – é necessário que os países criem abordagens que “tornem os jovens líderes completos e capazes” de responder aos desafios da actualidade. Rita Arnaut citou um relatório recente do African Leadership Institute, que reforça “a urgência de treinar-se competências-chave e abrirem-se portas para que a geração de jovens líderes possa tomar decisões sábias e tornar-se uma parte activa na definição e concretização de estratégias de longo prazo”.

O PCA da Kixicrédito, Joaquim Catinda, lamenta que uma grande fatia das empresas que actuam no país tenha gestão ou suporte de profissionais estrangeiros, sem a preocupação de formação e valorização dos quadros locais.

Licenciado em Contabilidade e Auditoria, com especialização em Gestão Estratégica para Microfinanças, o jovem gestor considera que o país tem estado a “recorrer muito” aos quadros estrangeiros para a gestão de empresas nacionais, o que revela pouca consistência na qualidade da mão-de-obra local. Referiu, igualmente, que tal atitude se estende também ao sector público, onde há uma inclinação “muito grande” para se contratar consultores estrangeiros.

Para Joaquim Catinda, a qualidade de muitos técnicos formados em universidades nacionais ainda “é muito questionável”, mas tem havido melhorias e muitas “excepções”. Com um total de 250 colaboradores, na sua maioria jovens, Joaquim Catinda revelou que a sua empresa investe mais de 1 500 horas por ano na formação de capital humano.

Igualdade de oportunidades

Por sua vez, Erickson M’vezi, jovem gestor de 29 anos de idade, considera que o regresso de cidadãos angolanos da diáspora tem permitido colmatar a pouca oferta de quadros qualificados.

O co-fundador da startup Tupuca, empresa que em 2015 apostou no sector da distribuição de refeições, acredita que existe no país “algum” talento local. “Mais pessoas estão a regressar do exterior com o intuito de mostrar o que são capazes de fazer”, disse. O jovem que lidera uma das mais prósperas startups do país, defende, entretanto, a criação de oportunidades iguais para todos, ou seja, tanto para o profissional nacional, como para o jovem investidor estrangeiro,

para que sejam criadas condições para absorver os profissionais disponíveis no mercado doméstico de trabalho. Na mesma linha de pensamento, o CEO da Kixicrédito, Joaquim Catinda, salienta que existe uma “cultura de desprestígio para a iniciativa privada”, que começa no meio familiar, passa pela sociedade e invade as estruturas do Governo.“Se um jovem disser aos pais que depois de terminar a universidade vai abrir um pequeno negócio, é provável que venha a ser desencorajado por alegada falta de visão. A sociedade angolana ainda está muito resistente em dar às pessoas o livre arbítrio para a iniciativa privada, porque queremos empurrar toda a gente para o Estado”, criticou.

O fraco investimento no capital humano bem como a ausência de processos claros de administração interna nas empresas são desafios que concorrem para a improdutividade no país, destacou a Master Coach e empreendedora Maria Beny.

“As empresas em Angola, salvo raras excepções, não investem na renovação e no desenvolvimento das competências técnicas e comportamentais dos seus colaboradores”, afirmou, referindo ainda que os gestores não traçam planos de carreira que estimulem o desempenho dos funcionários.

Maria Beny argumenta que “todas as empresas precisam de processos de administração interna claros, bem como de uma comunicação eficiente” para que possam garantir um fluxo natural de tarefas.“Quando a visão de negócio é clara e activa, há também uma melhor entrega por parte dos colaboradores e consequentemente melhores resultados. E a remuneração, enquanto factor motivacional, passa a ser secundária”, sublinhou, acrescentando que “as empresas são constituídas por pessoas”, independentemente da dimensão da sua estrutura tecnológica e de produção.

Já Elizabete Dias dos Santos, de 39 anos de idade, formada em Direito, considera urgente a mudança de mentalidade por parte de alguns jovens gestores angolanos. Para a gestora do Grupo Diside desde 2008, é preciso que haja mais conjugação de sinergias, espírito de interajuda “e, talvez, alguma irmandade entre a nova geração de jovens líderes angolanos” para se conseguir competir em pé de igualdade com os grandes grupos empresariais estrangeiros.

Na sua visão, as empresas devem começar a desenvolver localmente o know-how necessário para “evitar a contratação desnecessária” de mão-de-obra estrangeira “que em muitos casos não acrescenta valor”. “Para cá, só devem vir os melhores, aqueles que certamente sabemos que vão trazer valor ao mercado nacional, vão ajudar a formar os quadros locais com conhecimento avançado”, defendeu Elizabete Dias dos Santos, que mereceu, recentemente, a distinção da Superbrands Angola.

Ainda segundo a nossa entrevistada, o país deve ter a capacidade de atrair grandes investidores internacionais para que, localmente, sejam instaladas indústrias “capazes de operar e produzir bens e serviços suficientes e de qualidade”. Para tal, defende a adopção de uma nova postura entre as jovens lideranças que compõem o novo tecido empresarial, em vez de serem “muito vaidosas e pouco proactivas”.

Já Erickson M’vezi conta que a adopção de uma gestão baseada em “critérios simples” tem ajudado a alcançar os objectivos de produtividade traçados pela sua empresa. Formado em Engenharia Mecânica, o empreendedor disse que a estratégia tem assegurado o crescimento da empresa, que começou com 16 motorizadas e hoje distribui refeições com o auxílio de uma frota composta por mais de 300 motociclos. “Os grupos árabes já têm uma cultura colaborativa há bastante tempo”, referiu, tendo defendido que os jovens líderes angolanos criem mais condições de colaboração entre si.

Jason Angola realiza Talent Festival

Entretanto, 87 profissionais de diversas áreas, com destaque para os seguros, banca, telecomunicações, distribuição e saúde, participaram, recentemente, em Luanda, do Talent Festival, uma iniciativa da Jason Angola que visou capacitar novos líderes, proporcionando-lhes espaço de troca de experiências e debate à volta de questões ligadas à liderança e gestão.Segundo a consultora da empresa, Rita Arnaut, o evento superou “todas as expectativas”, tanto pela adesão das organizações, quanto pelo feedback positivo dos participantes e parceiros.

Questionada sobre a convivência entre a nova e velha geração de líderes nas empresas, a responsável respondeu que se trata de uma questão que é um tema global. “O convívio entre gerações de líderes sempre teve os seus desafios, contudo, na era em que vivemos, num contexto VICA – volátil, incerto, complexo e ambíguo –, os desafios exacerbam-se. Se por um lado, temos o peso da expe-riência das lideranças mais maduras, importantíssimo para a tomada de decisão neste contexto, por outro, temos as lideranças jovens que trazem consigo a flexibilidade e a agilidade que tanto são necessárias num contexto de mudança permanente”, destrinçou a consultora.

Mais do que nunca, reforçou Rita Arnaut, é necessária uma combinação entre ambos, “sendo que a sua aproximação torna-se imprescindível”.

A preocupação pela formação de novos líderes, de acordo com a mesma fonte, “é generalizada”, a capacidade de investimento é diferente e varia de sector para sector. A consultora da Jason Angola entende que se passou da esfera da formação para a do desenvolvimento, “porque hoje se procuram experiências e novas formas de assimilar conteúdo”.

Já sobre o sector público, Rita Arnaut afirmou que o Estado “tem por tradição uma dificuldade acrescida de adaptação a novas formas de fazer, tendo em conta o peso da burocracia e das estruturas hierárquicas rígidas, que não facilitam a rapidez de adaptação e a flexibilidade”. Contudo, “nota-se uma abertura por parte do sector público e uma curiosidade acrescida por parte das entidades, o que é um excelente sinal”.

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