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Pedro Cativelos
November 25, 2019

To do or not to do(ing) business em África

Dizem-nos as notícias que o mundo não anda muito Shakesperiano. Ou talvez até ande. A tensão entre a China e os Estados Unidos é latente. Até em África. E a Rússia espreita sobre os seus ombros

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...procurando intrometer-se entre eles, tentando ver melhor. Sobretudo África. Será para o seu bem (de África), ou acabará o continente em Tragédia, como Hamlet, o Príncipe da Dinamarca.

Na primeira cimeira Rússia-África, que reuniu 40 governantes africanos e o presidente russo, Vladimir Putin, estiveram em destaque a exploração de recursos minerais, as relações comerciais e a venda de armamento.

Um menu, interessante, sem dúvida. Pouco literário, no entanto. Em relação aos recursos, foram assinados acordos com o Ruanda, o Sudão do Sul e a Guiné Equatorial. E de acordo com o chefe de Estado moçambicano, Filipe Nyusi, um conjunto de empresários russos também manifestou interesse em investir no sector dos recursos minerais e nos transportes, no país.

Ao nível comercial, o Presidente russo fez saber que a cimeira Rússia-África é para continuar e passará a realizar-se de três em três anos. E revelou que, nos próximos cinco anos, a Rússia espera que as trocas comerciais com o continente africano cheguem aos 40 mil milhões de dólares, duplicando o valor actual. Em relação ao armamento, os avanços também foram claros, apesar do tema se dar a uma certa obscuridade: “Actualmente, contamos com cerca de 12 mil milhões de dólares em contratos assinados e já pagos. Vinte países africanos estão actualmente a cooperar connosco”, confirma Alexandre Mikheev, presidente da empresa pública de venda de armamento da Rússia, Rosoboronexport.

Putin foi incessante e ofereceu-se ainda para mediar o impasse que se tem arrastado na construção da barragem no Nilo que, nos últimos dias, tem feito aumentar os focos de tensão entre o Egipto e a Etiópia. Mas ainda há mais: outra das curiosidades da cimeira foi o convite feito à empresária angolana Isabel dos Santos (que tem ascendência russa) e ao Presidente de Angola, João Lourenço, que suscitou acusações veladas de ‘provocação

Para regressar ao princípio do texto, e à alusão a um dos maiores textos da literatura (apesar de a Rússia também contar na sua História com alguns nomes que poderiam ter escrito este argumento, como Dostoiévski, Tolstói ou Tchekhov). Na cimeira de Sochi, o enredo começou pelas trocas comerciais, passou pelos segredos bem guardados, e armas foram negociadas, num cenário onde se desenrolaram cenas de união, que não deixaram de ser pinceladas por momentos de suspense e alta tensão dignos de obra-prima. Para, no fim, acabar tudo bem, com promessas de parte a parte.

E foram vários os líderes africanos que se mostraram “satisfeitos e esperançosos” com a intenção do aumento do investimento da Rússia no continente. Olga Kulkova, investigadora do Instituto de Estudos Africanos da Academia de Ciências da Rússia, falou à agência DW sobre como “a Rússia quer encontrar o seu nicho e a sua direcção com parcerias em África com objectivos comerciais ambiciosos.” Sabe-se como a Rússia passou as últimas décadas, e tem despertado economicamente, alavancada, nos últimos anos pelos recursos naturais (detém as maiores reservas de gás natural do mundo, por exemplo), apesar de ainda distante na sua dimensão económica (PIB de 1,5 biliões de dólares) dos seus dois gigantes concorrentes pelo continente africano: Estados Unidos (19,3 biliões) e China (12,2 biliões).

Por falar em fazer negócios, foi anunciado o relatório anual do Doing Business, elaborado pelo Banco Mundial. Moçambique voltou a cair (depois de uma subida registada no ano passado) porque, de acordo com a CTA, “tardam a entrar em vigor” as reformas necessárias para que seja, efectivamente, “mais claro, transparente e acessível, o mundo dos negócios no país.”

Moçambique voltou, assim, a cair no índice regredindo da posição 135 para 138, de entre as 190 economias avaliadas.

Talvez porque para fazer novos bons negócios seja indispensável conhecer os bons velhos clássicos. Porque eles nunca deixam de ser actuais e dão sempre jeito para nos ajudar a ver o mundo como ele verdadeiramente é.

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