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Celso Chambisso
November 18, 2019

UM PASSO RUMO À PACIFICAÇÃO DE UMA REGIÃO CONTURBADA

Com apenas ano e meio no Governo, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, deu passos importantes na resolução de conflitos que duravam há décadas com

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Celso Chambisso
Jornalista
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...a vizinha Eritreia acabando por merecer o Prémio Nobel da Paz

A imagem da etiópia está muito associada à pobreza extrema e a guerras étnicas que perpetuam o espectro da miséria. Por muito tempo, o que mais se ‘vendeu’ daquele país da África Oriental foi a imagem de um lugar que as pessoas nunca escolheriam para viver, e onde os maiores árbitros de conflitos do mundo sempre tiveram dificuldades em pôr fim aos jogos sangrentos pelo poder. Mas, recentemente, uma intervenção bem-sucedida na pacificação desta região acabou por merecer uma das mais prestigiantes distinções – o Prémio Nobel da Paz. Em linhas gerais, “o primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali foi galardoado “pelos seus esforços em prol da paz e da cooperação internacional, em particular pela sua iniciativa decisiva de resolver o conflito fronteiriço com a vizinha Eritreia”, indicou a presidente do Comité Nobel, Berit Reiss-Andersen.

Filho de mãe cristã e pai muçulmano, Abiy Ahmed chegou ao poder em Fevereiro de 2018, após a demissão de Hailemariam Desalegn, no contexto de uma profunda crise política. Tornou-se no líder mais jovem de África (hoje com 43 anos).

Chegado ao poder, tentou conter os confrontos, libertou centenas de presos políticos, retirou o estado de emergência, nomeou um governo paritário e permitiu o regresso à Etiópia de figuras destacadas da oposição que se tinham exilado, além de ter assinado acordos de paz com a vizinha Eritreia a 9 de Julho de 2018 (com apenas três meses no trono).

A fricção entre vizinhos era quase cinquentenária. A Eritreia, que lutava pela independência desde 1961, só conseguiu a libertação em 1993, levando a que a Etiópia perdesse a sua única faixa marítima (sobre o Mar Vermelho). Entre 1998 e 2000, os dois vizinhos travaram uma guerra que provocou pelo menos 80 mil mortos, com a questão da delimitação da fronteira a figurar entre as razões do conflito. Desde então, os dois países mantinham numerosas forças ao longo da fronteira comum, de mil quilómetros, apesar de terem assinado em 2000 um acordo de paz em Argel, que nunca foi implementado.

O clima entre os dois países foi sempre bastante instável. Não havia guerra aberta, mas também nunca houve paz.

É na governação de Abiy Ahmed que, finalmente, quase tudo começa a caminhar para a pacificação.

Com a sua premiação vieram também os elogios: os jornais locais tratam-no como “um símbolo de paz e justiça numa região onde os líderes políticos têm governado com violência, tirania e violação dos direitos humanos”, ou apelidam-no de “líder transformacional em equidade e direitos humanos dentro da Etiópia”.

Uma premiação prematura?

A presidente do Comité Nobel Norueguês, entidade responsável pela distinção, Berit Reiss-Andersen, prevê que, apesar do “mérito” do primeiro-ministro etíope, “algumas pessoas acharão que este prémio está a ser atribuído demasiado cedo”, já que há ainda muito caminho por percorrer até se estabelecer a paz efectiva dentro da Etiópia e entre o país e a Eritreia. Outra razão para temer críticas é o facto de a atribuição do Prémio Nobel da Paz ao antigo Presidente dos EUA, Barack Obama, há dez anos, também ter sido vista como “precipitada”. E foi.

Para Berit Reiss-Andersen, é legítimo que se faça este reconhecimento ao ministro Abiy agora, porque os seus esforços “merecem reconhecimento e precisam de ser encorajados”, além de que “o Comité Nobel Norueguês espera que os acordos de paz tragam mudanças positivas para todas as populações da Etiópia e da Eritreia”.

O Comité Nobel Norueguês também não concorda que se tenha precipitado em conceder o prémio ao chefe do Governo da Etiópia por reconhecer as suas “intenções de levar a cabo eleições democráticas no próximo ano… definitivamente, há muito que já foi conseguido em termos de fazer reformas democráticas na Etiópia, mas há ainda um longo caminho a percorrer. ‘Roma não foi feita num dia‘ e a paz e o desenvolvimento democrático também não são atingidos num curto espaço de tempo”, defende a presidente.

Havia forte concorrência

Para muitos, o primeiro-ministro da Etiópia seria uma segunda opção para o prémio, já que as apostas apontavam como favorita a jovem sueca de 16 anos, Greta Thunberg, activista em defesa do clima. Mas acabou por não ser escolhida pelo comité Nobel.

Entre os nomes falados estavam também o da chefe do Governo neo-zelandês, Jacinda Ardern, pela sua resposta ao atentado terrorista contra as mesquitas de Christchurch, bem como de organizações como a Repórteres Sem Fronteiras ou o Comité para a Protecção dos Jornalistas.

A premiação de Abiy Ahmed é a 24ª atribuída a um africano, de um total de 99 distinguidos, motivo de orgulho para o continente, cujos líderes já se manifestaram através das redes sociais, felicitando o primeiro-ministro etíope.

Através do Twitter, a Amnistia Internacional instou o líder etíope a aproveitar a distinção para respeitar os direitos humanos. “O primeiro-ministro da Etiópia recebeu o Prémio Nobel da Paz. Este prémio deve servir para motivá-lo a fazer face aos grandes desafios de direitos humanos que possam reverter os ganhos alcançados até agora”, desafiou-o. O Nobel será oficialmente entregue a 10 de Dezembro e vale 9 milhões de coroas suecas, o equivalentes a 930 mil dólares (quase 60 milhões de meticais).

Mundo reconhece Abiy Ahmed

O secretário-geral da ONU, António Guterres, emitiu um comunicado a saudar o chefe de Governo da Etiópia. “Disse várias vezes que ventos de mudança sopram por toda a África. O primeiro-ministro Abiy Ahmed é uma das razões. A sua visão ajudou a Etiópia e a Eritreia a chegarem a um entendimento histórico e sinto-me honrado em testemunhar a assinatura do acordo de paz no ano passado. Isto abriu oportunidades para a região tirar partido da paz e da segurança e a liderança do primeiro-ministro Ahmed é um magnífico exemplo para os outros e para além de África, no sentido de se ultrapassar a resistência causada pelo passado e de pôr as pessoas em primeiro lugar”, disse.

A Comissão Europeia também reagiu à distinção do chefe do Governo etíope no Twitter: “Congratulamos o vencedor do Prémio Nobel da Paz, o primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed Ali. Com a sua coragem, ele constrói pontes na região, recomeçando as conversações de paz depois de 20 anos de impasse com a Eritreia. Estamos ao lado da Etiópia na sua caminhada para a democracia e a paz”.

Etiópia orgulhosa

Reagindo ao prémio, o governante revelou sentir-se “humilde e emocionado... muito obrigado. Este é um prémio para África, atribuído à Etiópia. Posso imaginar que os restantes líderes de África vão vê-lo como algo positivo e trabalhar no processo de construir a paz em todo o continente”.

Através do Twitter, o seu gabinete declarou: “Expressamos o nosso orgulho na escolha do primeiro-ministro da Etiópia para Prémio Nobel da Paz de 2019. Este reconhecimento é um testemunho dos ideiais da unidade, da cooperação e da coexistência mútua, que o primeiro-ministro tem vindo consistentemente a defender”.

Em Maio deste ano, Abiy Ahmed já tinha sido laureado com o Prémio de Paz Félix Houphouët-Boigny, da UNESCO.

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